Arrasadora vitória do partido de Suu Kyi em Myanmar

(Atualização – em 9/11/205 – de texto publicado no dia das eleições)

Os resultados finais da apuração das eleições de 2015 em Myanmar (ex-Birmânia) asseguram uma vitória indiscutível e majoritária da Liga Nacional para a Democracia, o partido da Nobel da Paz Aung San Suu Kyi. As 12 cadeiras da Câmara, conforme os votos apurados na primeira sessão eleitoral de Rangun, a capital, foram todos atribuídos à LND.

“Nós perdemos” confessou o Htay Oo, máximo dirigente do PUSD, o partido no poder.  Confirmaram-se as projeções de que a atual oposição teria mais de 70% do total dos votos, ou seja, superando os 2/3 exigidos para que possa governar, naquele que será o primeiro governo democraticamente eleito nos últimos 55 anos. Contudo, as Forças Armadas permanecerão sendo a força dominante, mesmo porque a Constituição lhe assegura 25% das cadeiras no Parlamento e o comando da área de segurança, além de poder assumir o poder em determinadas circunstâncias e seguir no comando de poderosas empresas estatais.

A LND obteve 247 cadeiras na Câmara e 131 no Senado. O total de 378 em todo o Parlamento é mais do que suficiente do que o necessário (329 votos) para eleger o novo presidente do país.

Suu Kyi, que legalmente está impedida de assumir a presidência, disse que será o poder sob o novo presidente, apesar da Constituição imbecil de Myanmar.  

Independente desde 1948, a Birmânia democrática chegou a eleger U Thant como Diretor-Geral da Organização das Nações Unidas em 1961, mas um ano depois o governo civil foi derrubado e o país naufragou sob o negro manto da ditadura militar que gere o país até hoje. Nas décadas de 60 e 70, integrou o Triângulo Dourado do ópio e da heroína junto com Tailândia e Laos.

Ao final do século XX as plantações de papoula transferiram-se para o Afeganistão, responsável atualmente por 90% da heroína comercializada no mundo, mas Myanmar – o novo nome, desde 1998, desta nação de 55 milhões de habitantes, separada da Índia e de Bangladesh pelo Golfo de Bengala – mantém o 2º lugar graças aos recentes aumentos de produção nas encostas do Himalaia onde milícias pertencentes à etnia Kachin vendem drogas (incluindo, cada vez mais, anfetaminas e ecstasy) para financiar sua guerra por autonomia.

Após quase cinco décadas de domínio absoluto pelo Partido Socialista de Birmânia, a Junta Militar foi dissolvida em 2011 dando lugar a um governo fantoche sob o comando do ex-general Thein Sein, desde então como líder do novo Partido de União Solidária e Desenvolvimento (PUSD), que em sua ação mais espetacular liberou a líder oposicionista Aung San Suu Kyi, da prisão domiciliar em Rangun onde permaneceu por uma década e meia. Um ano antes de receber o Prêmio Nobel da Paz, Suu Kyi venceu por larga margem as eleições nacionais de 1990 que, no entanto, foram ignoradas pelos militares. Em 2007, fracassou a “revolução açafrão”, promovida pelos monges budistas, em sua tentativa de derrubar o governo nacional.

Aung San Suu Kyi discursa em seu último comício anrtes das eleições de 8/11/2015 em Myanmar (AFP)
Aung San Suu Kyi discursa em seu último comício anrtes das eleições de 8/11/2015 em Myanmar (AFP)
Colheita de ópio em Myanmar (www.deamuseum.org/ccp/opium/production-distribution.html)
Colheita de ópio em Myanmar (www.deamuseum.org/ccp/opium/production-distribution.html)

Sein assinou um cessar-fogo com oito dos principais grupos étnicos oposicionistas (há 135 minorias étnicas reconhecidas no país e 150 grupos guerrilheiros), mas outros sete que se negaram a participar continuam a negociar uma possível adesão. As eleições parlamentares acontecem neste domingo 8 de novembro para eleger 440 integrantes da Pyithu Hluttan (Câmara) e 224 da Amyotha Hluttan (Senado). Em ambas as Casas, pela Constituição, 25% dos membros são militares indicados pelo Comandante em Chefe das Forças Armadas.

Em seguida os congressistas deverão escolher o próximo presidente. A Carta Magna, contudo, tornou inelegível quem for casado com estrangeiro ou tiver filhos de outra nacionalidade, exatamente o caso único de Suu Kyi, que é viúva de cidadão britânico e máxima dirigente da Liga Nacional para o Desenvolvimento – LND, cuja vitória nas urnas é tida como certa. Thein Sein prometeu anular este quesito, mas para isso depende da aprovação de 75% dos congressistas. Se a mudança não for feita em seguida, ela só poderá ser presidente em 2020, quando tiver 75 anos. A maioria da população está nas ruas exigindo a reforma constitucional.

Entre as piores dívidas a serem saldadas pela ditadura está o genocídio da minoria étnica muçulmana Rohingya. Seus pouco mais de um milhão de sobreviventes, concentrados no estado de Rakhine (a noroeste da capital Rangun), resistem em condições sub-humanas, sem direitos de cidadania nem passaporte. Tidos como membros da etnia mais discriminada e perseguida do planeta, mesmo sem poder votar esperam pelo fim do predomínio militar e para que um pouco de arrependimento toque o coração dos budistas birmaneses. (VGP)

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