Estado Islâmico abateu o avião russo?

Sharm el-Sheikh, às margens do mar Vermelho, é o principal refúgio de verão para a elite egípcia e para milhares de estrangeiros que, cada vez mais, acorrem às suas praias de águas tépidas servidas por resorts e hotéis para todos os bolsos. Tornou-se o destino de férias preferido para mais de um milhão de russos somente no 1º semestre deste ano, vindos em aviões fretados por operadoras de segunda linha especializadas na venda de pacotes turísticos baratos. Em tempos de gélido inverno chegando e de crise econômica na Rússia (forçada pelo bloqueio norte-americano), o Egito passou a ser uma opção financeiramente mais acessível que a Espanha ou a Turquia. Por não mais de 600 dólares (R$ 2.300,00) é possível passar uma paradisíaca semana na terra dos faraós, com passagem aérea, estada e alimentação incluídas.

Às seis horas da manhã do último sábado 31 de outubro o vôo charter 7K9268 da Operadora russa Kogalymavia que voa sob o nome fantasia Metrojet, decolou de Sharm el-Sheikh com destino ao aeroporto de São Petersburgo com 224 passageiros a bordo, todos desta cidade à exceção de três ucranianos e um de Minsk, a capital da Bielorússia. Menos de 25 minutos depois a aeronave desintegrou-se em pleno ar e caiu, matando seus ocupantes ao lançá-los nas areias do deserto do Sinai, ao norte do Cairo, uma região infestada por grupos terroristas do “Estado Islâmico do Sinai (EI-S)” que, entre outras ações, combatem o governo ditatorial de Abdul Fatah al-Sisi.

Prontamente, um comunicado do EI-S reclamou a autoria: “soldados do Califado foram capazes de derrubar um avião dos cruzados russos sobre a província do Sinai”. Após realizar análises preliminares, no domingo, o diretor-geral da Kogalymavia, Alexander Smirnov, descartou qualquer causa técnica: “a única razão plausível é um impacto mecânico. Não existe combinação de falhas do sistema que possa ocasionar a destruição do avião no ar”. No Egito, um comitê que faz a análise inicial da caixa preta assegurou que não houve impacto externo, o que anula ou reduz a hipótese de um míssil, mesmo porque os terroristas não teriam capacidade para atingir a altura de 9.144 metros em que estava o Airbus. Os passageiros foram ejetados junto com seus assentos e os fragmentos espalharam-se por uma área de 20 km2, aparentemente indicando uma bomba acionada de dentro por um terrorista suicida como a origem da explosão. Para autoridades russas que defenderam o piloto Valery Nekov, não houve erro humano. A aeronave estaria em perfeitas condições.

“Quando Putin começou a bombardear a Síria, eu disse que nós deveríamos esperar por algo assim”, declarou Sergei Kubov, conforme o The New York Times, refletindo uma opinião que é consenso entre os observadores dos fatos no Oriente Médio a partir dos violentos bombardeios desfechados pelas forças de Moscou nominalmente contra o Estado Islâmico e na prática um ataque direto aos adversários do presidente sírio Bashar al-Assad.

Há duas explicações básicas para a contundente decisão russa de invadir a Siria. Uma é a antiga relação de fraternidade que une os dois povos, cujas famílias estão entrelaçadas desde os tempos da 2ª. Guerra, quando os militares sírios foram treinados em Moscou. Outra é a fixação de Putin por eliminar o terrorismo checheno, o que parece não ter conseguido, pois é sabido que muitos dos mais radicais militantes do EI são muçulmanos provenientes da Chechênia, não sendo improvável que um deles seja o responsável pela queda do avião da Metrojet.

As consequências desses fatos, em particular para o já debilitado setor turístico egípcio e em geral para a região são tremendas. Várias empresas aéreas têm evitado cruzar o espaço aéreo sobre o Sinai, onde impera o caos imposto por milícias tribais de todos os credos. Até aqui Sharm el-Sheikh mantém seus altos índices de ocupação, mas agora quem irá correr o risco? E, diante da constatação de que a intervenção dos foguetes e blindados russos significa a definitiva desestabilização do conflito que já destrói as sociedades síria e iraquiana, ressurge a hipótese de uma nova e bem mais ampla guerra que desta feita pode não se restringir ao Oriente Médio. (VGP).

Em Sharm el-Sheikh, no Egito, resort às margens do Mar Vermelho
Em Sharm el-Sheikh, no Egito, resort às margens do Mar Vermelho

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