Macedônia, como sempre, sob pressão

Forças de Segurança da Macedônia tentam impedir ingresso de migrantes na fronteira com a Grécia (Foto AP/Vlalko Perkovski)
Forças de Segurança da Macedônia tentam impedir ingresso de migrantes na fronteira com a Grécia (Foto AP/Vlalko Perkovski)

A Macedônia, com seus 2,1 milhões de habitantes, é um dos menores e menos populosos países do mundo. Num território de 25,7 mil km2 o país ganha por pouco de Taboão da Serra (São Paulo) que por sua vez está entre os dez menores municípios brasileiros. Mal se recuperava de seis séculos sob domínio otomano e da Guerra dos Balcãs viu-se engolida pela Iugoslávia do marechal Tito da qual só conseguiu separar-se quarenta e seis anos depois, em 1991, quando afinal teve direito à independência e a uma cadeira na Organização das Nações Unidas. Sem acesso ao mar, hoje parece o conteúdo de um sanduíche pressionado de um lado pelos migrantes que lhe envia a Grécia e de outro pela Sérvia que não os quer receber. São milhares de desesperados, vindos principalmente da Síria, mas também do Iraque, do Afeganistão, da África, que querem atravessar o país até a Sérvia para daí acessar aos países da União Europeia. Em julho foram 39 mil migrantes e apenas em um dia, na última 5ª. feira, as autoridades macedônias, obrigadas a ceder à pressão sobre a cidade fronteiriça de Gevgelijn – após dois dias resistindo à custa de bombas e cassetetes – concederam 4 mil vistos. Trens disponibilizados às pressas em quatro horas os levaram a Miratovci, na Sérvia, onde um acampamento sob responsabilidade da Acnur – Agência das Nações Unidas para Refugiados – fornece água, comida e autorizações temporárias de permanência. Então, podem seguir de ônibus até a fronteira com a Hungria, mas aí se deparam com o bloqueio das forças de segurança e com um muro, em construção, de 4 metros de altura e 175 km de extensão. O jeito, então, é tentar arrastar-se por baixo de cercas de arame farpado romenas, croatas ou eslovenas.

O drama vivido por essas massas humanas é indescritível. Fugitivos da guerra e da fome em seus países de origem são rejeitados onde quer que se apresentem. Os gregos, submetidos a forte crise econômica, tornaram-se ainda mais xenófobos do que nunca e empurram para adiante os que chegam à sua costa. Na prática, cada país procura livrar-se dos migrantes abrindo válvulas de escape nas divisas com seus vizinhos, uma atitude que contrasta com o que ocorre por exemplo na Síria, Paquistão, Afeganistão e mesmo no Irã, onde agências de turismo oferecem excursões europeias, sem exigir passaporte nem vistos a quem pagar cerca de 10 mil dólares pela viagem. É o meio onde atuam livremente os traficantes de seres humanos, de drogas e de armas, contando com a colaboração de funcionários corruptos. Em geral as rotas são as mesmas que desde sempre são usadas para o transporte de heroína dos campos afegãos para a Europa. Há três caminhos tradicionais: o mais comum é via Turquia, Grécia, Macedônia, Sérvia, Hungria; o segundo vai da Turquia para Romênia ou Bulgária; enquanto um terceiro começa pela Grécia rumo à Albânia, dai a Montenegro, Croácia e Itália.

As chances de sucesso são maiores, orientam os organizadores da terrível empreitada, se levarem uma criança. Afinal, um homem correndo rumo à linha de fronteira carregando um bebê ou com um garotinho encarapitado em seu pescoço, dificilmente será fuzilado pelo soldadinho que tem ordens de impedir sua passagem.

Nessas paragens, as notícias percorrem as distâncias com velocidade surpreendente, identificando as brechas onde quer que surjam. Quando as autoridades macedônias, na semana passada, decretaram estado de emergência tentando proibir o trânsito por seu território, a orientação (no lado dos migrantes ilegais) foi de aumentar a pressão principalmente durante a noite quando os gritos de crianças e mulheres soam mais alto. Então, no sábado, conforme declarou à AFP um taxista, “foi uma loucura. Havia gente por todos os lados, taxis e ônibus chegavam e partiam apressados”, e os guardas para evitar um massacre baixaram as armas, deixando a turba passar. Dois dias antes um trem internacional que atravessava a Macedônia vindo da Grécia não conseguiu frear e pouco antes da meia noite atropelou e matou a quatorze somalis e afegãos que não saíram da linha férrea na tentativa de saltar nos vagões caso o comboio reduzisse a marcha.  A orientação atual da polícia macedônia é de não utilizar a força, “buscando métodos alternativos para evitar a entrada de ilegais”, ou seja, as levas humanas devem multiplicar-se até que esses métodos sejam identificados e se tornem eficazes.  

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