Egito naufraga consumido pelo radicalismo

Quando o presidente egípcio Abdel Fatah el-Sissi cumprimentou publicamente ao Procurador-Geral Hisham Barakat considerando-o um herói nacional, sacramentou sua condenação à morte pela ala mais radical da Irmandade Muçulmana – I.M. – que o tinha na mira desde que foi empossado posse no cargo em julho de 2013 em seguida ao golpe militar dado por Sissi, então comandante das Forças Armadas, que derrubou o único presidente democraticamente eleito do país, Mohamed Morsi. Acionada por controle remoto uma bomba de alto poder colocada num carro estacionado junto ao meio-fio no distrito de Heliópolis em frente ao Colégio Militar, explodiu o automóvel blindado onde trafegava o juiz rumo ao trabalho junto com sua escolta.

Na condição de principal autoridade do Judiciário egípcio, Barakat comandou a surpreendente absolvição do ex-presidente Osny Mubarak (derrubado logo após a Primavera Árabe em 2011) e a condenação à morte de Mohamed Morsi e de centenas de seus companheiros, atendendo aos desejos de um governo tomado por uma fúria incontrolável e decidido a limpar o país de seus adversários políticos. “O atual governo, estabelecido na base da violência, transformou o Egito de uma promissora democracia em uma terra onde os assassinatos oficiais são a regra”, declarou à Al Jazeera, desde Londres onde está homiziado, Mohammed Montasser, porta-voz da I.M., a qual condenou como inaceitável o ataque ao Procurador.

É verdade que o curto governo de Morsi, que durou apenas um ano, foi um desastre e originou forte rejeição do povo que recém o tinha eleito, mas a dura repressão imposta pelos militares (o Exército domina mais de 40% da economia nacional) nada tem a ver com os erros da administração precedente. Estima-se que 40 mil membros ou simpatizantes da Irmandade foram detidos. Em julho de 2013 a multidão reunida na ampla praça central de Jubaa, no Cairo, foi massacrada pelos soldados que em um só dia mataram 1.400 pacíficos manifestantes.

A condenação à pena capital de Morsi e de 105 dirigentes e militantes da I.M. foi decretada sem o devido processo legal e sem direito efetivo de defesa face à ausência de qualquer comprovação concreta das acusações. Khaled Diab, destacado jornalista com dupla nacionalidade, belga e egípcia, escreveu sobre “a morte da razão no Egito” numa crítica ao que considera ser um jogo político de soma zero que o governo de el Sissi está impondo. Em seguida à confirmação, inclusive pelo Grande Mufti (máxima autoridade sunita à qual simbolicamente são submetidas as decisões dos tribunais) da pena capital contra Morsi, instalou-se uma onda de violência que inicialmente vitimou três juízes na região do Sinai e que agora atinge seu auge  com o atentado à principal figura do Judiciário egípcio.

Tribunal egípcio condena Mahamed Morsi à morte (fonte: Al Jazeera)
Tribunal egípcio condena Mahamed Morsi à morte (fonte: Al Jazeera)
Mohamed Morsi, único presidente eleito do Egito
Mohamed Morsi, único presidente eleito do Egito

A iminente execução de Morsi (ainda cabe recurso) poderá resultar numa incontrolável reação popular, desestabilizando a terra dos faraós ao conduzi-la a um clima de guerra civil que certamente seria aproveitada pela Al Qaeda e por facções xiitas, apoiadas ou não pelo Irã. No curto prazo, a ameaça maior está na hipótese sem dúvida altamente provável de que el-Sissi use a morte do Promotor como justificativa para aumentar a repressão no rumo daquele que é o seu desejo maior: a  erradicação da Irmandade Muçulmana, cujo maior pecado foi ter ganho as eleições quatro anos atrás.

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