Em Havana, negociação com Farc exige paciência

A Mesa de Negociação em Havana entre as Farc e o governo colombiano começou seus trabalhos, mediados por Cuba e Noruega, em novembro de 2012. Trinta e um meses depois a ideia de um acordo de paz com o abandono das armas pela guerrilha mais antiga do planeta ainda parece ser um sonho sem data para se concretizar, embora os otimistas não percam oportunidade para declarar que “o processo é irreversível”. Em relação aos quatro grandes temas sob análise – desenvolvimento agrário integral, participação política, drogas ilícitas, direitos das vítimas – os resultados parecem tímidos e por vezes risíveis, não fosse o fato de que após meio século de guerra o saldo trágico seja de 220 mil mortos e 5,5 milhões de refugiados. Na verdade, é preciso uma paciência infinita para suportar doses cavalares de subterfúgios, de faz-de-conta com que os dois lados se negam a reconhecer os crimes que cometeram, que cometem e que seguirão cometendo. As negociações se desenvolvem com base em “ciclos” de discussão, mas já se foram 37 até agora numa média de 25 dias por ciclo. O 20º, p.ex., encerrado em fevereiro de 2014 sobre o tema das drogas concluiu genericamente pelo óbvio: “as partes concordam em que a solução ao tema dos cultivos ilícitos deve fundamentar-se numa reforma rural integral”. O comandante Walter Mendoza das Farc, pronunciando-se em relação a punições a responsáveis por alguns dos massacres ocorridos declarou: “não viemos a Havana para nos submetermos. O mínimo para alcançar a reconciliação é que se procedam as reformas estruturais que acabem com a miséria, a desigualdade e a falta de democracia”, mas não especificou em quantos anos isso se dará.

O próprio presidente Juan Manuel Santos comentou, em visita recente à Espanha, que não haverá extradição: “não creio que nenhum guerrilheiro vá entregar suas armas para ir morrer num cárcere norte-americano”. No que foi considerado um impressionante avanço positivo das conversações, o grupo dedicado à desativação de minas terrestres resolveu começar em maio último pelo “desminado humanitário” da Vereda El Orejón nos arredores de Briceño (Antioquia). Durante uma semana vários guerrilheiros com mapas nas mãos assinalavam os locais onde havia minas enterradas para remoção por especialistas militares. Uma graça! Em paralelo a guerra prossegue. Em resposta ao ataque, em Cauca, a uma patrulha do Exército, um violento bombardeio das Forças Armadas matou, no dia em que as Farc comemoravam 51 anos de existência, 47 guerrilheiros, entre os quais dois dos negociadores de Havana – Jairo Ramirez e Adán de Jesus, o Chaqueto.

Rodrigo Londoño, o Timochenko, Nº 1 das Farc
Rodrigo Londoño, o Timochenko, Nº 1 das Farc

 

Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia em 2º mandato
Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia em 2º mandato

Não obstante os resultados obtidos até aqui estejam envoltos numa cortina de fumaça que não permite reconhecê-los com nitidez, os dois lados se comportam como se grandes avanços estejam em marcha. O presidente colocou seu próprio irmão na equipe negociadora governamental e a guerrilha acaba de pedir autorização para que o seu Nº 1 – Rodrigo Londoño, o Timochenko – viaje a Havana. O governo colombiano, que cobre despesas com passagens e estadia, de imediato suspendeu as 118 ordens de captura que pesam sobre o homem que substituiu a Alfonso Cano, morto em combate também em Cauca. Com isso já estão na capital cubana sete altos dirigentes guerrilheiros, o que é interpretado como um sinal de que a conversa está se tornando mais seria. Em seguida o Senado federal decidiu sugerir uma reunião top entre Santos e Timochenko. A proposta está sendo analisada.

A semana anterior foi movimentada, com Iván Marquez e Pastor Alape, os principais homens das Farc na Mesa, recebendo a visita de Kofi Annan da ONU, de Bernard Aronson como enviado de Barack Obama, além da delegação de doze militares de alto escalão, ou seja, os que estão fazendo a guerra no território colombiano. Nenhum comunicado foi emitido. Contudo, questões como o narcotráfico, extradições, libertação de Simón Trinidad dos cárceres americanos, punições aos acusados, certamente foram discutidas.

Persistem à espera de recomendações concretas todos os pontos essenciais da discussão: como e quando se dará o fim dos conflitos e o silêncio das armas, que modelo de justiça transicional será adotado, cessar-fogo bilateral desde já, interrupção do tráfico que segue financiando tudo. A impunidade é vedada pelos códigos internacionais de direitos humanos em respeito às vítimas, mas do ponto de vista da guerrilha suas ações bélicas se devem ao pleno exercício do “direito à rebelião”. Não se sabe o que acontecerá quando guerrilheiros desmobilizados contarem suas histórias à Justiça. Por um lado, sentenças de 15 ou 20 anos para um fazendeiro por ter financiado a guerrilha ou os paramilitares, de outro lado serviço social para os dirigentes máximos responsáveis pelas matanças? Uma Comissão da Verdade será instalada após o acordo de paz. Por ora circulam propostas indecorosas, como a aprovação de leis de “Punto Final” e de “Perdón y Olvido”, lembrando a Argentina de Menem e dos militares, mas há na Colômbia uma consciência firmada de que um acordo de paz mal feito, sem qualquer punição, significará apenas a perpetuação da guerra.

A Suécia hoje se comove com a identificação da cova em que estava enterrado o corpo do jovem Jan Philip Braunisch, 26 anos, capturado há dois anos quando cruzava os rios de Chocó numa expedição de aventura rumo ao Panamá. O local exato, numa remota comunidade indígena, foi informado pelos negociadores das Farc em Havana e o crânio teve de ser recomposto antes da entrega à família para que lhe desse um destino mais digno. 

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