A globalização, tão abalada, pode reinventar-se?

Dentre as grandes transformações que caracterizam o mundo atual, o intenso desgaste da globalização é um fenômeno preponderante. “Mundo Século XXI” reproduz a seguir os pontos principais da análise produzida pelo economista e diplomata Marcos Troyjo (leia o texto original completo – Vem aí a competição entre globalizações – na Folha de S. Paulo de 05/06/2015), que entre seus muitos títulos é integrante do Conselho Consultivo do Fórum Econômico Mundial, Diretor do BRICLab da Universidade de Colúmbia e professor visitante da Ranepa (Russian Presidential Academy of National Economy and Public Administration). Examina o papel passivo do Brasil numa etapa em que se dá a gradativa internacionalização do renminbi – a moeda chinesa – e se engendra uma nova globalização na qual o papel de Washington e de Pequim deve se tornar ainda mais forte.

“Comparados aos exuberantes anos 90, os atuais fluxos de comércio estão mais seletivos. Os movimentos de capitais e trabalhadores, mais restritos. Agências internacionais como o Banco Mundial e o FMI, menos globais. Esta fase de desglobalização, a que contribuíram eventos como o 11 de Setembro ou as crises financeiras de 2008 (subprimes) e de 2011 (passivos soberanos europeus), ainda não se dissipou.

Por que a Globalização 1.0, aquela que se seguiu à queda do Muro de Berlim, foi tão severamente abalada?

Globalização: o fim e o recomeço
Globalização: o fim e o recomeço

Há, por um lado, um mundo inquestionavelmente mais conectado por tecnologias. Hoje é bastante mais fácil o acesso a viagens internacionais. Aprofundou-se o fenômeno das redes produtivas globais. A economia mundial tornou-se mais interdependente. Por outro, a globalização, em termos conceituais, deveria ter ido muito além do que o mero avanço nas comunicações e nos transportes. Ela deve abranger instituições e consensos de alcance cada vez mais planetário.

Dessa perspectiva, são muitos os sinais de que o mundo se desglobalizou. A ONU não está mais forte. A OMC não se apresenta funcional e consolidada. A opinião pública global não se manifesta de modo mais uniforme. Economia de mercado e democracia representativa não representam unanimidade. O Ocidente não triunfou de forma absoluta. A história não acabou.

Diferentes fatores concorreram para minar a Globalização 1.0.

A crença cínica dos EUA em sua excepcionalidade afastou-os da adesão ao Tribunal Penal Internacional e ao Protocolo de Kyoto. Os anacrônicos subsídios europeus ao seu paparicado agricultor depreciaram o capital moral de Bruxelas para negociações comerciais. Soberba e miopia dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU imobilizaram qualquer dinâmica de reforma e atualização daquele órgão central da diplomacia multilateral. Apego ao protecionismo, substituição de importações e afinidades ideológicas pelas relações Sul-Sul afastaram países como Brasil, Argentina e África do Sul das potências na Europa e América do Norte.

Todo esse acervo antiglobalização acabou por gerar curiosas e incidentais alianças de conveniência.

A esquerda “progressista” brasileira bradava contra a Alca, assim como o discurso oficial da Venezuela chavista ou a porção mais nacionalisticamente à direita do Partido Republicano nos EUA. Ativistas contra a tecnologização do campo na América Latina e na Índia caíram como luva às posições mais protecionistas do lobby agrícola europeu.

Potências ocidentais preferiram olhar para o outro lado quando o assunto era a problemática relação direitos humanos/condições laborais na China ou o rarefeito oxigênio democrático naquele país.

Socorro oficial e crescente intervenção governamental nos EUA e Europa ofereceram munição renovada a entusiastas do capitalismo de Estado nos Brics. O mais interessante, no entanto, é que o atual quadro desglobalizado não tem produzido vencedores.

Ninguém ganhou com o malogro da Globalização 1.0. O mundo está mais perigoso e menos economicamente dinâmico. O paradoxal, contudo, é de que agora em diante a própria projeção do interesse nacional de potências como EUA e China tem tudo para produzir mais, e não menos globalização.

A família de novas instituições financeiras sinocêntricas (diferentes bancos para Brics, infraestrutura na Ásia, etc.); a pujante presença chinesa como investidora direta e de portfólio no mundo, e ambicionada internacionalização do renminbi (moeda chinesa) constituem alguns dos muitos veículos da globalização projetada por Pequim.

Na globalização que vem por aí, instituições multilaterais têm menos papel efetivo e mais força simbólica. A ideia de esferas de influência não se restringe à vizinhança geográfica (vide a presença chinesa na América Latina e África ou a tentativa dos EUA em aumentar sua influência na Ásia).

Nesta reglobalização, a identidade se dá menos na uniformidade da vida institucional (democracias cooperando com democracias) e mais na coincidência de interesses (EUA cooperando com autocracias no Oriente Médio; ou o regime chinês resolvendo indistintamente problemas de financiamento de democracias latino-americanas ou cleptocracias africanas).

Envolto num misto de incompreensão e paralisia ante a evolução do cenário global, o Brasil se apresenta inerte ao embate entre projetos globalizadores. O país representa polo passivo na agenda definida por Pequim para a América Latina. Pouco se esforça para influir no desenho de acordos econômicos plurilaterais. Hesita em pragmaticamente despriorizar o discurso pela improvável reforma do Conselho de Segurança da ONU. Não reconhece que concentrar fichas no jogo comercial a partir da OMC é um sonho. Finge que o Mercosul ainda é para valer.”

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