Incêndios no Oriente Médio

O fanatismo religioso que por vezes passa desapercebido entre quatro paredes torna-se uma arma fatal quando envolve populações inteiras submetidas a governos radicais. É assim com sauditas, iranianos e iemenitas que agora alimentam as chamas que consomem a região meridional da Península Arábica, onde o Iêmen – um território do tamanho do estado da Bahia com 29 milhões de habitantes cercado pelo Golfo de Aden e pelo Mar Vermelho – debate-se em meio a um conflito entre sunitas e xiitas que vem do ano 632 d.C. quando Maomé, após receber as revelações que compõem o Alcorão, morreu e seus seguidores se dividiram em dois grupos. Um, minoritário, defendendo a linhagem familiar, formou o Shiat Ali (Partido de Ali, o genro do profeta) e dai o ramo dos xiitas; outro, para o qual todo e qualquer fiel poderia ser o sucessor, resultou no Ahl al Suna, o povo da tradição, ou seja, os sunitas. Por mais absurdas que fossem as diferenças, elas só fizeram crescer com a conquista de novas terras e reinos. É bom recordar que bem antes, no século X a.C. do Iêmen à Eritréia e até Israel a rainha de Sabá e o rei Salomão já disputavam espaços e súditos. Em 1990, afinal o Iêmen do Norte otomano uniu-se ao do Sul que recém se livrara do jugo britânico, formando o instável país atual.

A acidentada fronteira de 1500 km que separa o Iêmen da Arábia Saudita pode ser o passaporte de invasão do reino de Salman bin Abdulaziz al Saud, o monarca que há apenas dois meses governa em Riad, por forças iranianas ou da Al Qaeda da Península Arábica – AQAP. Esta se aproveita das insolúveis disputas tribais e de movimentos separatistas ao sul e ao norte, agravando o conflito iemenita, o mais antigo e complexo do Oriente Médio, que agora se radicaliza. E o Great Game (Grande Jogo) entre os sauditas que lideram o bloco sunita e os iranianos que apoiam os xiitas da minoria houthi, o grupo que se fortaleceu ao ponto de ocupar Sanaa, a capital e Aden, a segunda maior cidade do país, para onde fugira o deposto presidente Mansour Hadi.  Após perder o Iraque, o rei Salman resolveu proteger sua porosa fronteira ao sul. A força aérea saudita começou a bombardear as bases houthis em volta de Aden, à frente de tropas provenientes dos nove países com os quais acaba de formalizar uma coalisão sunita na chamada Operação Tempestade Decisiva: Bahrein, Egito, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Kuwait, Marrocos, Paquistão, Qatar e Sudão. As monarquias do Golfo jogam uma última cartada num cenário que tem em seus costados o contínuo fortalecimento do Exército Islâmico em volta de Bagdá e de Damasco.

No papel é uma ofensiva formidável, mas dois outros fatores podem ser decisivos nessa batalha. Em primeiro lugar, não é possível uma vitória total no Iêmen, onde os 65% da população que é sunita ou os 35% que são xiitas, continuarão a resistir com fortes chances de um novo conflito sem fim repetindo o ocorrido, por exemplo, no Líbano e na Líbia. Em segundo lugar, toda a região observa com crescente apreensão a errática movimentação dos Estados Unidos que agora, na contramão do agudo cenário político e bélico do Oriente Médio, dedicam-se à costura do acordo nuclear com os aiatolás. A Coalisão dos Países do Golfo, considerando que o Iraque já caiu nas garras das forças iranianas que agora forçam a retomada das cidades ocupadas pelo Exército Islâmico, inevitavelmente chega à conclusão de que o acordo com os americanos levará ao fortalecimento rápido e extremamente perigoso do Irã, levando-o a tornar-se uma potência cada vez mais corrosiva para seus vizinhos.

As perspectivas são pouco favoráveis para quem quer que seja. É possível que a ofensiva aérea e terrestre da coalisão árabe obrigue o recuo dos houthis, forçando-os a retornar à mesa de negociação com o presidente Mansour Hadi. Os houthis, no entanto, embora não tenham como obter uma vitória no campo de batalha, ao que tudo indica vieram para ficar e teriam de participar em um novo governo conjunto. Uma invasão em massa dos sauditas, ocupando o Iêmen ou parte dele, é algo fora de cogitação para todos. No momento, a separá-lo do mundo sunita o Irã xiita conta com dois fortes escudos: Síria e Iraque, sendo que este era sunita até antes da invasão dos EUA em 2003. Aumentar sua influência sobre o Iêmen significaria obter uma base de operação valiosíssima para minar as energias de seus arqui-inimigos sauditas que, no entanto, não estão dispostos a ceder mais do que já cederam.

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