Crise na Petrobrás: repercussões internacionais – Mudança no comando deixa empresa na mesma (Boletim nº 7 – 07/02/2015)

Máscara de Graça Forster, ex-presidente da Petrobrás, para o carnaval do Rio de Janeiro de 2015 (imagem: g1.globo.com)

Com a queda da presidente Graça Forster e de cinco diretores em 4 de fevereiro, esperava-se que a oportunidade fosse aproveitada para dar um choque de credibilidade na companhia e no mercado nomeando substitutos com conhecimento e autonomia suficientes para, inclusive, recuperar a confiança dos brasileiros seja na maior empresa do país seja no governo.

Ao que tudo indica não foi o que ocorreu. A grande imprensa internacional refletiu, de imediato, o clima de decepção e de descrença que, afinal, ajuda a tornar mais difícil o caminho dos novos responsáveis.

Neste Informe apresentamos as notas publicadas pelo Le Monde de Paris e pelos espanhóis El Mundo e El País. Neste, além da matéria principal, incluímos um trecho do artigo de opinião “Petrobrás, o Titanic político da presidenta Dilma Rousseff” de Juan Arias.

LE MONDE – Paris, 07/02/2015

Aldemir Bendine nommé à la tête du geant pétrolier brésilien Petrobras

RÉACTION NÉGATIVE DES MARCHÉS

La nominatation d’Aldemir Bendine, un banquier de carrière sans expérience dans le pétrole et proche du pouvoir, avait été annoncée vendredi matin par les principaux médias brésiliens. Elle a été accueillie de façon très négative par les marchés, faisant plonger lourdement les actions de Petrobras à la Bourse de Sao Paulo. (Reação negativa dos mercados. A nomeação de Aldemir Bendine, um banqueiro de carreira e próximo do poder, foi anunciada na manhã de 6ª. feira pelas principais mídias brasileiras. Foi acolhido de modo muito negativo pelo mercado, fazendo mergulhar fortemente as ações da Petrobrás na Bolsa de São Paulo).

 

EL MUNDO – Madri, 07/02/2015

El presidente del Banco de Brasil nuevo presidente de Petrobras para pasar página a los escándalos

 

El actual presidente del Banco de Brasil, Aldemir Bendine, será el encargado de recuperar la credibilidad de Petrobras y hacer olvidar el monumental caso de corrupción desvelado por la Operación Lava Jato.
EL PAÍS – Madri, 06/02/2015 (edição em português)

O Conselho de Administração da Petrobras confirmou o nome deAldemir Bendine, o atual presidente do Banco do Brasil, para assumir o timão da companhia. A informação, que começou a circular nas primeiras horas desta sexta-feira, frustrou os agentes financeiros que esperavam um nome de peso para reverter o pessimismo em torno da estatal, imersa em denúncia com a operação Lava Jato. A indicação, feita pela presidenta Dilma Rousseff, foi mal recebida no mercado, pela pouca afinidade do executivo com o mundo do petróleo, uma vez que a sua experiência se resume apenas ao maior banco público do país, onde ingressou em 1978.

Se o verniz diplomático para relacionar-se com o mundo político o ajudou a chegar à presidência do Banco do Brasil em 2009, o mesmo perfil é visto com desconfiança para suceder Graça Foster, numa empresa que precisa exatamente quebrar um esquema de corrupção endêmica que está de mãos dadas com o sistema político brasileiro. O desvio de bilhões de reais da empresa foi feito com a ingerência de representantes de partidos — entre eles, o PT — segundo as investigações da Operação Lava Jato, da Polícia Federal. “A expectativa era ter alguém com um profundo conhecimento técnico da área de petróleo, e personalidade para resistir a influências externas. Bendine é o avesso do que se esperava, e com ele, voltam as incertezas”, avalia Sidney Nehme, diretor da NGO Corretora.

O economista Cláudio Frischtack classificou a indicação de uma “resposta medíocre” para a crise na Petrobras. “Um símbolo do país foi tomada de assalto por partidos políticos, que levaram a números inacreditáveis e erros colossais. A solução apresentada [para substituir Foster] é equivocada”, afirma.

Entre os executivos sondados, alguns teriam recusado a proposta por temer o alcance da teia corruptora que até o momento é desconhecido, mas pode expor novos desvios no futuro. Assim, o próximo número um poderia ser responsabilizado judicialmente por crimes da companhia, ainda que ele fosse recém-chegado à Petrobras.

Ao fim e ao cabo, Bendine ficará na presidência da Petrobras exatamente por falta de candidatos e pela pressão de dar uma resposta rápida ao mercado depois da renúncia de Foster nesta semana. “Quem, da iniciativa privada, assumiria a Petrobras agora, e colocaria a cara a tapa [para assinar] o balanço? Teria, de qualquer jeito, de ser uma criatura política nesse momento. É o melhor cenário, no pior dos mundos”, opina uma observadora do setor financeiro.

Quem o conhece bem o descreve com um técnico muito qualificado, e respeitado pelos agentes do setor financeiro. Agora, porém, ele terá de mostrar qualidades superlativas para dirigir as tormentas do mundo do petróleo, e da Petrobras. Não só isso: a companhia, com 86.000 funcionários, atravessa um inferno astral, atormentada pelas investigações judiciais que sacode o Brasil, e paralisa a economia brasileira. 

Petrobrás, o Titanic político da presidenta Dilma Rousseff  (Juan Arias)

Perante as evidências do escândalo de corrupção que fez a empresa perder 60% do seu valor e motivou um clamor da oposição e dos mercados, Dilma se viu obrigada a aceitar a demissão da amiga Foster, após se negar repetidamente a isso. A tempo ou tarde demais? Ninguém é capaz de profetizar isso, porque tanto a polícia federal como os juízes continuam interrogando e prendendo implacavelmente diretores da Petrobras e das grandes empreiteiras acusadas de organizar conjuntamente esse grande festim de corrupção, já estimado em mais de 25 bilhões de reais.

A dúvida é se o drama da Petrobras – uma empresa que conta com um corpo técnico de dar inveja a outras de seu gênero e com uma gloriosa história pregressa – poderá se resolver com a simples troca do capitão do navio à deriva, e se o caso não acabará por arrastar a própria presidenta da República, não por acusações de corrupção, mas sim pela responsabilidade que exercia e exerce sobre a empresa.

Se o câncer que corrói a Petrobras é tão grave como parece, a empresa estaria hoje, segundo analistas políticos, semelhante a um Titanic, ao qual nem o melhor dos capitães teria salvado. Finalmente, questiona-se se a própria presidenta Rousseff, com fama de intervencionista, deixará a nova equipe com mãos livres para manipular o bisturi, devolvendo à Petrobras sua independência técnica e meramente empresarial, sem que o braço oculto da política volte a usá-la para fins pouco republicanos.

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