Iêmen, um país sem esperanças

Shibam, cidade ancestral do Iêmen, considerada a "Manhattan do deserto" (Getty images para a BBC)

Abd Rabbuh Mansur Hadi, após dois anos no poder com notório apoio de Washington, renunciou em 15 deste janeiro, junto com todo seu gabinete, à presidência do Iêmen quando os rebeldes Houthi ocuparam Sanaa, a capital e cercaram o palácio. Contudo, o Parlamento iemenita negou-se a aceitar a renúncia, com o que Hadi continua formalmente no posto sem poder governar porque está confinado à sua residência. Uma passeata de manifestantes sunitas e jornalistas no centro da cidade foi dissolvida a golpes de cassetete e facão, enquanto o assessor da ONU para o Iêmen, o marroquino Jawal Benomar, desenvolvia desesperados esforços para impedir a completa deterioração da situação política e social de um país que hoje jaz esquecido pelo mundo entre vizinhos poderosos como a Arábia Saudita e o principado de Omã. Situado na Península Arábica, às margens do Golfo de Aden no Oceano Índico, sua situação econômica com um PIB per capita de US$ 1,477 (segundo dados do Banco Mundial para 2013) só se compara em pobreza, na região, aos igualmente miseráveis Djibouti (US$ 1,668) e Eritréia (US$ 544) que lhe são fronteiriços no outro lado do Mar Vermelho. Para efeitos de comparação o PIB per capita do Brasil é de US$ 11,208, dos EUA de US$ 53,042, da Arábia Saudita de US$ 25,912 e Omã US$ 21,929, sempre para 2013.

O atual Iêmen é o resultado da união entre o Norte pró-Ocidente e o Sul comunista em 1990, sem nunca de fato se integrarem. Em 2011, logo após as manifestações na Tunísia e no Egito, a Primavera Árabe levou o então presidente Abdullah Saleh a deixar o poder. A instabilidade que se seguiu foi aproveitada pelo grupo radical muçulmano Al Qaeda, então sob forte pressão no Paquistão e no Afeganistão, que ai montou aquela que hoje é sua base mais forte e mais ativa: a Al Qaeda da Península Arábica (AQAP) que, dentre várias outras ações espetaculares, há pouco se responsabilizou pelos ataques ao Charlie Hebdo em Paris .

Por trás das lutas ideológicas está a questão religiosa que há séculos separa os descendentes de Maomé em sunitas e xiitas. Tradicionalmente o comando político iemenita tem cabido à maioria sunita respaldada pela Arábia Saudita (o Omã segue um credo muçulmano intermediário, o ibadismo), mas desde setembro quem domina são os Houthis Ansar Allah, Guerreiros de Deus, Xiitas, com o apoio do Irã e das milícias libanesas do Hezbollah.  Seu líder é o jovem Abdul-Malik al-Houthi, considerado um “Sayyid”, descendente direto do Profeta Maomé e que assim,pela tradição xiita, deve comandar o seu povo. Não por acaso os sauditas classificam os houtis como terroristas, basicamente por serem um grupo xiita atuando em território sunita. Em consequência, milícias da AQAP passaram a combater os houthis cujo objetivo, no momento, é de conquistar a autonomia de modo a fazer com que o país volte a se dividir, agora como um Iêmen sunita e outro xiita. Num sinal de boa vontade, as milícias houthis atuantes na província sulista de Shabwa acabam de libertar o chefe do staff da presidência – Ahmed Awad bin Mubarak – que havia sido detido na semana precedente. O presidente Mansur Hadi, nascido no sul, estaria colaborando com os agora poderosos golpistas houthis. Sobre o que vai acontecer nos próximos dias ou meses, qualquer previsão carece de bases sólidas. O lançamento de drones pelos norte-americanos a partir da Arábia Saudita foi temporariamente suspenso porque, com a renúncia de Hadi, não havia mais governo nacional em condições de ser apoiado e mesmo os inimigos se tornaram mais difusos e difíceis de especificar.

 

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