As meninas do Taleban

 

“O homem é o chefe e a mulher é sua empregada. As mulheres devem ficar em casa e deixar que os homens as cuidem”, diz uma garota afegã numa Madrassa – escola islâmica – em Kunduz, a quinta maior cidade do país (305 mil habitantes, ao norte). Seu nome é Ayesha, Asma, Wahida, não vem ao caso, pois quem se importa com ela? Neste começo de inverno as nuvens de chuvas já escurecem o céu e não raro os termômetros marcam zero graus às 5 da tarde quando  ela deixa o prédio retangular de poucas janelas nos três andares de paredes descoradas. Deve voltar direto para casa caminhando em grupos e em passos rápidos, o véu do hijab bem amarrado deixando-lhe apenas os olhos a descoberto. Há um segundo véu que ela deve baixar ao cruzar com homens que lhe sejam estranhos.

“O véu não é uma ordem da Madrassa, é uma ordem de Deus.” Ela sabe que não pode tirá-lo. A pena é a flagelação. Há cerca de 1.300 dessas escolas no Afeganistão, separadas por gênero.

Nos tempos atuais, especialmente nas cidades maiores, as mulheres podem sair nas reuas e avenidas sem a companhia de seus pais ou esposo, podem trabalhar e cursar até mesmo uma Universidade. Não obstante, mesmo esses direitos estão cada vez mais ameaçados pela agressiva presença da militância taleban.

Numa Madrassa feminina, que funciona em geral das 8h às 16h, o ensino é exclusivamente religioso, com base no alcorão. As meninas, mantidas num estado de total analfabetismo funcional, não têm acesso a livros ou cadernos de matemática, ciências ou idiomas. Uma das mais controversas desas madrassas é Ashraf-ul Madares em Kunduz, fundada por dois clérigos onde 6.000 meninas a partir dos 10 anos e adolescentes estudam em tempo integral. As meninas lá estão exclusivamente para ouvir sobre o alcorão e sobre ensinamentos do profeta Maomé. As aulas são dadas por mestres (homens) que são proibidos de encarar qualquer uma delas, sendo obrigatório o uso do hijab completo.

As cinegrafistas Najibullah Quraishi e Jamie Doran obtiveram um raro e amplo acesso às dependências da Ashraf-ul Madares e a partir de hoje (22/12/2014) o filme por elas produzido – The Girls of the Taliban – está disponibilizado pela rede global Al-Jazeera, sendo aqui exibida a cópia disponível no site do You Tube (https://www.youtube.com/watch?v=vHWuj0SWs84). Está em inglês, mas vale a pena vê-lo. Ademais de mostrar o interior da escola, ouvir as declarações e comentários das alunas e de seus professores, o filme enfoca a dramática situação das mulheres num país com forte influência do Taleban, um dos mais radicais grupos islâmicos ligado à Al Qaeda.

 

 

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