Um novo dia para Cuba e Estados Unidos

Barack Obama, tendo perdido politicamente quase tudo, finalmente decidiu-se a governar e a fazer o que manda sua consciência. Sem mais compromissos eleitorais e convencido de que não há acordo possível com a direita republicana, optou por usar os poderes que tem como chefe do Executivo, mesmo que isso exija, como se fosse um presidente latino-americano, governar por decreto. Após abrir caminho para os imigrantes, comunicou hoje ao mundo que as relações diplomáticas com Cuba estavam reatadas! Falando de Washington, lembrou as palavras de Albert Einstein de que “não se pode seguir fazendo o mesmo e esperar obter resultados diferentes”. Paralelamente Raúl Castro informou o povo cubano, em Havana, “la restauración de las relaciones diplomaticas con los Estados Unidos”, conforme de imediato anunciou como manchete principal de sua edição virtual o Granma, órgão oficial do Partido Comunista cubano.

O surpreendente acordo foi negociado no mais absoluto sigilo desde junho de 2013 em reuniões realizadas no Vaticano e no Canadá. A intervenção do Papa Francisco foi decisiva no processo. O fim do embargo a Cuba, que Obama reconheceu ter sido um fracasso, terá de ser confirmado pelo Congresso norte-americano, com os republicanos jurando que não aprovarão a designação de um embaixador e a instalação de uma representação diplomática em Havana, mas colocados contra a parede. Para negar, terão de explicar ao povo suas razões para manter um bloqueio de 53 anos que, além de prejudicar severamente o povo cubano, serviu apenas para aumentar desmesuradamente a relevância mundial da pequena ilha caribenha.

Raúl Castro e Barack Obama cumprimentam-se em encontro no Panamá, em 2013
Raúl Castro e Barack Obama cumprimentam-se em encontro no Panamá, em 2013

Em síntese, passam a vigorar as seguintes medidas: a) restabelecimento de relações oficiais (suspensas em 1961) entre os dois países; b) abertura de embaixadas nas duas capitais; c) cooperação em temas de interesse mútuo como migração, operações antidroga, proteção ao meio ambiente, tráfico de pessoas, entre outros; d) concessão de licenças para viagens a Cuba para visitas a familiares, atividades jornalísticas, pesquisas, reuniões profissionais, atividades educacionais e religiosas, participação em espetáculos públicos e torneios desportivos ou projetos humanitários; e) aumento de exportações e importações de artigos determinados; f) apoio a capacitação comercial a empresas cubanas; g) autorização de remessas trimestrais a pessoas físicas de US$ 500 para US$ 2.000; h) uso de cartões de crédito em território cubano; i) apoio à maior difusão da internet; j) estudos para retirar, num prazo de 6 meses, Cuba da lista de países que patrocinam o terrorismo (na lista desde 1982, mas há 20 anos os EUA não acusam Cuba de apoiar a qualquer grupo terrorista). Obama pedirá ao Congresso que “faça um debate aberto sobre levantar o embargo a Cuba.”

Alan Gross, 65 anos, o americano detido em 2009 quando, patrocinado pela Usaid (Agência NA para Desenvolvimento Internacional), tratava de dar acesso à internet a membros da comunidade judaica local, tornou-se um símbolo do acordo bilateral ao ser um dos dois americanos libertados. Gross foi julgado e condenado a 15 anos de cárcere e nos 5 que passou na prisão perdeu 45 quilos, alguns dentes e o olho direito, mas sobreviveu e retornou sorridente, da mesma forma que em contrapartida os cinco cubanos que obtiveram idêntico benefício. Na verdade, diante da condenação praticamente unânime da comunidade internacional a um processo que, remontando à Guerra Fria, tornara-se historicamente injustificado e obsoleto, ao final havia um só país isolado pelo bloqueio: os Estados Unidos.

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