Uruguai: vitória de Tabaré e as diferenças para o Brasil

O retorno à presidência de Tabaré Vázquez, 72 anos, que ocupou o mesmo posto até 2009 pela Frente Ampla, parecia inevitável, pois os institutos de pesquisa (sempre eles) diziam que seis de cada dez uruguaios o preferiam a Luis Lacalle Pou do Partido Nacional (PN – Blancos), 41, filho de Luis Alberto Lacalle, o candidato derrotado pelo atual 1º mandatário José Mujica em 2009. No entanto, as eleições em 1º turno de 26 de outubro mostraram uma situação bem mais indefinida, com 48% dos votos para Tabaré, 31% para Lacalle, 13% para Pedro Bordaberri do tradicional Partido Colortado (PC), 3% pára Pablo Meireles do Partido Independente (PI) e por volta de 1% para dois outros candidatos nanicos, da esquerdista Unidade Popular, e   do Partido Ecologista Radical Intransigente. Uma vez que a reeleição está vedada pela Constituição, o atual presidente José Mujica, de profissão “chacareiro” e considerado o presidente mais pobre do mundo (continua dirigindo seu Fusca 1300, ano 1987). concorreu e foi eleito ao Senado. Ele comanda uma nação que está classificada entre as mais democráticas de todo o mundo, com índices de alfabetização, cultura, liberdade de imprensa, padrão educacional e democracia que superam a todos os demais da América Latina e se ombreiam às das nações mais adiantadas do planeta. Em sua administração foram aprovadas leis de legalização do aborto, casamento gay e fumo de maconha.

A centro-esquerda, considerando os últimos dez anos, perdeu 4 pontos de seu capital eleitoral, enquanto os Blancos cresceram 3 pontos. A Frente Ampla elegeu 15 senadores (entre os quais Mujica e sua esposa Lucia Topolanski) e se vencer a presidencial no 2º turno terá a maioria, pois pelas regras eleitorais uruguaias o vice-presidente Raúl Sendic se incorporará ao Senado. Na última hora a maioria foi conquistada na Câmara dos Deputados pela obtenção da 50a. cadeira. Numa tentativa de modificar as práticas da Frente Ampla – que tem desenvolvido uma política essencialmente de centro -, cinco senadores constituíram um bloco denominado de “Giro à esquerda”, incluindo  comunistas, tupamaros e o Movimento de Aletrnativa Socialista. Por uma pequena diferença o “não” triunfou no plebiscito proposto para decidir se a maioridade penal deveria ser reduzida para 16 anos.   Três horas depois de encerrada a votação Bordaberri pelo PC declarou, conforme o esperado, seu apoio participante e ativo ao PN .

No 2º turno (em 29 de novembro) Tabaré conquistou uma vitória indiscutível com 53,5% dos votos contra 41% para Luis Lacalle Pou dos Blancos. Mantendo a boa tradição política uruguaia Lacalle discursou reconhecendo como limpo o triunfo de Vázquez que, assim, se torna o segundo político do país a ser reeleito presidente.

Professor lembra as diferenças

O professor Juan Verdesio da Universidade de Brasília, uruguaio sempre atento à evolução de seu país e ao que acontece por aqui, comentando a nota acima escreve:

“É importante destacar que há, em relação ao Brasil, diferenças enormes na maneira como é encarada a política no Uruguay. Primeiro, lá se vota em Partidos e em legendas (“lemas”) dentro dos partidos. Vota-se em pessoas que representam uma visão coletiva de mundo. A fidelidade partidária dos votantes é a mesma do que para times de futebol. Não necessita nenhuma lei, pois isso acontece naturalmente. Político que se bandeia para o outro lado está frito ou vai ter que recuperar os votos longamente. São indícios de maturidade política, embora seja inegável que esconde muito conservadorismo. Outra coisa que não é aceita é a corrupção. O país tem uma justiça que funciona e um sistema policial não corrompido. Político corrupto não se elege. A Transparência Internacional coloca o Uruguai entre os menos corruptos da América Latina e em melhor posição que, por exemplo, França Itália, Portugal e Espanha. Está na 19ª posição numa escala de 177 países no ano  de 2013. Isto explica em parte a eleição de Dilma Rousseff. Não é somente porque as camadas socialmente menos favorecidas sentem-se mais amparadas por governos do PT mas porque uma grande parte da população brasileira é mais tolerante à corrupção e mais fatalista. Acha que todo político é corrupto, o que não é verdade. Outras características diferenciais que poderiam ser destacadas e que são contraditórias: o Uruguai tem leis sociais muito avançadas que chegaram cedo (divorcio em 1907, voto da mulher antes da França (1917 efetivado em 1927), embora se trate de um país machista onde as mulheres têm pouco acesso aos cargos públicos, gerências e cargos executivos; a escolarização é altíssima, mas a Universidade está fortemente politizada e é pouco meritocrática. Outro problema se relaciona às poucas oportunidades existentes para os jovens. Há uma gerontocracia muito estendida.”

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