A China, de Zheng ao senhor Xi

Há semelhanças entre o almirante Zheng He que entre 1430 e 1433 realizou sua última expedição naval pelo Pacífico e Xi Jinping, o flamante Secretário-Geral do Partido Comunista da China empossado em março de 2013? Durante a dinastia Ming o imperador Yongle considerou que o domínio do mercado no oceano Índico era um desígnio divino e o comércio exterior passou a ser um monopólio do Estado. A China tornou-se a maior potência marítima mundial e o almirante em suas sete expedições alcançou até a costa africana com barcos a vela de mais de cem metros que em muito superavam em tecnologia e capacidade às então nascentes armadas inglesa, espanhola e portuguesa. Com a morte de Yongle, a partir de seu segundo sucessor, Hongxi, tudo mudou. A China retirou-se dos mares, queimou a frota e se fechou em si mesma, satisfeita com os ensinamentos de Confúcio.  Zheng He, proibido de navegar, passou à história como o grande navegador que quase colocou a China no topo do mundo. Em seu lugar ascenderam, no final do século XV, as potências marítimas ocidentais.

Em novembro Pequim sediará a cúpula de chefes de Estado que compõem a APEC – Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico –, uma organização com um PIB de US$ 17 trilhões e responsável por 46% do mercado global. Os 20 países (além da China, participam EUA, Canadá, Japão, Rússia, Peru, Chile, México, Formosa, Hong Kong, Coréia do Sul, Tailândia, Indonésia, Filipinas, Malásia, Cingapura, Brunei, Austrália, Nova Zelândia e Papua Nova Guiné) que a compões têm 40% da população da Terra e suas decisões são fundamentais para o comércio e para o equilíbrio político do planeta. Será o primeiro encontro entre Obama e Xi, sócios predominantes que dependem um do outro inclusive para equacionar seus problemas internos.

Xi Jinping, Secretário-Geral do PPCh
Xi Jinping, Secretário-Geral do PPCh

Como que retornando aos tempos de Zheng He, Xi Jinping hoje acumula um crescente poderio naval que provoca cada vez mais desconfiança e temor entre os demais membros da Apec. Conflitos marítimos sem solução se multiplicam, com Japão, Filipinas e, fora da Apec, Vietnã. Mais que isso, o Secretário-Geral debate-se com novos e crescentes incômodos dentro do seu território com o movimento pró-eleições democráticas em Hong Kong e os protestos dos uigures muçulmanos na província autônoma de Xinjiang que se somam aos conflitos periódicos no Tibete.

Zheng He viveu de 1371 a 1433
Zheng He viveu de 1371 a 1433

Em artigo publicado no Los Angeles Times de 19 deste mês de outubro, o professor Carl Minsner, um especialista em política chinesa, afirma que “a China de novo está vagarosamente voltando-se para si mesma”, mas reúne poucas evidências concretas em favor deste ponto de vista.  Ainda assim seus argumentos são preocupantes. Acha que Xi pode estar acumulando poderes pessoais para se transformar num novo Mao, afastando-se dos ensinamentos de Deng Xiaoping, que em 1978 desmantelou a China da revolução cultural maoísta (quando comunistas tradicionais protestaram contra a abertura ao mundo, em uma de suas famosas frases respondeu: “se você abre a janela para receber ar fresco, deve esperar que algumas moscas entrem também”). A linguagem de Confúcio estaria uma vez mais retornando para legitimar uma dinastia moderna com seus imperadores. Arquivos previamente abertos a estudiosos ocidentais agora são cerrados, avoluma-se a campanha contra igrejas cristãs em Xinjiang, o movimento dos jovens em Hong Kong sofre crescente intimidação, empresas como Mercedes e Microsoft debatem-se com medidas restritivas inesperadas.

Os tempos de discussão e de tomada coletiva de decisões da era Deng estão acabando, substituídos por uma cada vez maior concentração de poderes nas mãos de Xi, enquanto a intensificação da propaganda (toda a mídia é oficial) dá o tom para o ressurgimento do culto à personalidade do líder maior. A China de hoje pertence aos capitalistas: 1% da população controla 1/3 da riqueza. Milionários com seus iPhones deslocando-se em limusines dirigidas por enluvados choferes, matriculam os filhos em superlotadas escolas de inglês, preparando-os para estudar no exterior. Décadas de dependência de softwares globais deixam o país à mercê de danosos ataques cibernéticos.

Para Xi Ling Pin e seu grupo esta é uma realidade preocupante e a resposta tem sido a volta dos expurgos, duro combate à corrupção, controle sobre a avalanche de filmes hollywoodianos, ênfase na cultura nacionalista, aumento de vagas para alunos das famílias mais pobres, confissões televisionadas de empresários arrependidos. A hipótese de fechamento da China numa política de autoisolacionismo é mais compatível com os sonhos de domínio global norte-americano do que com a realidade de um mundo onde a presença chinesa parece irreversível ao menos no médio prazo. É mais provável que Xi se inspire em Deng e em Zheng He do que em Mao.

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