A longa crise do sistema de saúde inglês

1º MInistro David Cameron e Secretário (Ministro) da Saúde Jeremy Hunt discutem com médico do SNS britânico

Nesta semana a crise que se abate sobre o Sistema Nacional de Saúde (SNS) do Reino Unido alcançou um novo patamar com a primeira greve dos últimos 32 anos. Nada de mais para os padrões brasileiros, mas algo inacreditável em se tratando das tradições britânicas: uma paralização de 4 horas, das 7 às 11 da manhã em plena 2ª. feira (dia 13/10/2014) de funcionários, enfermeiras, paramédicos por aumento salarial. O movimento foi convocado pelo Unison, o Sindicato de Trabalhadores do Serviço Público, depois que seus mais de 1,3 milhão de associados comprovaram 12% de perdas efetivas em seu poder aquisitivo a partir do momento em que os conservadores chegaram ao poder em 2010. O mais surpreendente foi a decisão do Colégio Real das Parteiras (Royal College of Midwives) que desde sua criação em 1881 nunca sequer cogitara aderir a um movimento paredista. Embora o governo do 1º Ministro David Cameron e de seu Secretário de Saúde (equivale ao posto de ministro) Jeremy Hunt tenham se esforçado para reduzir a importância da greve, o Unison considerou-a um incrível sucesso e programa nova paralização, ou durante 8 horas ou em períodos menores por setores – ambulâncias, exames complementares, recepção em clínicas e hospitais – em horários diferentes, o que por certo infernizaria ainda mais a vida dos pacientes e dos responsáveis pelos atendimentos.

Os críticos da gestão do Partido Conservador consideram que é um exemplo de como não se deve fazer as coisas, um caminho thatcherista (da ex-1ª. Ministra Margareth Thatcher) para a completa privatização do sistema público que em seus 66 anos de existência tem sido considerado como o melhor do mundo desenvolvido e um modelo para todos os demais países. Em artigo para o The Guardian seu analista de saúde Kailash Chand acusou o governo de estar sangrando o sistema com a demissão de 35 mil funcionários, incluindo 5,6 mil enfermeiras, nos últimos dois anos, além de fechar 1/3 dos centros de saúde e dos ambulatórios de apoio (Walk-in Centres que prestam cuidados de urgência com pessoal de enfermagem). O SNS em breve será apenas uma logomarca, uma instituição de caridade, enquanto o modelo de atenção à saúde gradativamente adquire características similares às praticadas nos Estados Unidos (tido como o mais caro e discriminatório do mundo), conclui Chand. Enquete promovida pelo jornal Sunday Mirror constatou que para 63% dos ingleses o SNS deteriorou-se na última década.

Um contundente e bem fundamentado documento intitulado “O Sistema Nacional de Saúde: uma bomba relógio” foi encaminhado ao 1º Ministro e ao líder da oposição. Assinada pelas dezesseis principais organizações representativas dos médicos, enfermeiras, parteiras, médicos de família, escola de saúde pública, entidades de especialistas, sociedades de Alzheimer, câncer, entre outras, a carta começa dizendo que o SNS e os serviços sociais estão num ponto de ruptura e isso não pode continuar. Prossegue afirmando que sinais de implosão do sistema resultantes de uma dupla crise provocada pelo aumento da demanda (face ao envelhecimento da sociedade) e redução no orçamento, podem ser vistos por toda parte. Como exemplos dos problemas mais comuns, cita fatos como o de milhares de pacientes que cada vez enfrentam mais longas filas para conseguirem um diagnóstico que lhes diga se têm ou não câncer, enquanto pessoas com problemas mentais necessitando cuidados emergenciais são referidos para hospitais a centenas de quilômetros de distância simplesmente porque não há leitos disponíveis em sua área de residência.

O novo “Shadow Health Ministry” (Ministro de Saúde na Sombra) do Partido Trabalhista, Michael Kane, ao coordenar uma demanda de mil pessoas que aguardavam, expostos ao frio do inverno londrino, em filas nos arredores da cidade para que ambulâncias os conduzissem a hospitais de pronto socorro, afirmou que essa era uma prova a mais de que a população sabe que o SNS não está  a salvo nas mãos de David Cameron. Não resta dúvida de que o sistema está sob pressão e os seus profissionais, com salários congelados há dois anos, trabalham num clima de estresse e insatisfação. Nove de cada dez ingleses têm sua saúde aos cuidados de um médico de família e se dizem cada vez mais preocupados com as notícias de cortes orçamentários e estagnação nas contratações dos GPs (General Practitioners). Há dez meses das eleições gerais no Reino Unido, a questão “saúde” torna-se um tema prioritário para os debates da campanha que já está nas ruas.

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