Os 47 desaparecidos de Ayotzinapa

José Luis, narcoprefeito de Iguala e a esposa Maria de los Ángeles. O casal mexicano sumiu após o tiroteio de Ayotzinapa.

A presença de 900 homens da Polícia Federal mexicana no estado de Guerrero, sudoeste do país, não tem sido suficiente para encontrar pistas dos 47 alunos da Escola Normal Rural Raúl Izidro Burgos de Ayotzinapa, no município de Iguala de la Independencia (ai foi assinada a libertação do jugo espanhol em 1821), desaparecidos desde a madrugada de 26 para 27 de setembro último quando a polícia local os levou, com vida segundo diversas testemunhas. Os estudantes haviam tomado três ônibus nos quais pretendiam viajar para a Cidade do México a fim de participar das manifestações pelo aniversário do Massacre de Tlatelolco (ocorrido em 1968 quando o Exército nacional disparou contra a multidão no centro da capital, matando mais de 300 estudantes). Pouco depois da meia-noite começou a fuzilaria com a intervenção da polícia municipal. Alguns conseguiram escapar, mas três jovens e três populares foram assassinados. Um ônibus que transportava o time de futebol da 3ª. Divisão, Los Avispones (Vespas ou Zangões) de Chilpancingo, e nada tinha a ver com a confusão, foi atacado pelos policiais e um jogador caiu morto. Logo ficou demonstrado que a polícia local tinha dupla função, pois também atuava como uma milícia do cartel das drogas dos Beltrán Leyva, um dos maiores do México, e entregou os 47 estudantes ao grupo local de traficantes “Guerreros Unidos”. Por trás de tudo encontra-se o prefeito municipal de Iguala, José Luis Abarca e sua esposa Maria de los Ángeles Pireda Villa. O casal não mais foi visto em lugar algum. Um dos policiais confessou que o “repasse” dos 47 ocorreu na divisa com o vizinho município de Cocula, cujas autoridades também estão envolvidas. Em consequência a Polícia Federal deu ordens de prisão ao prefeito de Cocula, ao seu chefe de Segurança e aos 23 integrantes da Polícia Preventiva Municipal, assumindo suas funções de proteção à população. Nos arredores de Iguala, as buscas encontraram 6 fossas com 28 corpos calcinados no local conhecido como Cerro Gordo. Em seguida surgiram outras 4 fossas, mas em nenhuma identificaram-se qualquer um dos 47 normalistas. Face à demora em localizar os desaparecidos, seus colegas com o apoio da FECSM – Federação de Estudantes Camponeses Socialistas do México – paralizaram a capital do estado, Chilpancingo, depredando o palácio do governo, ocupando a sede da Prefeitura, as sedes dos bancos, as lojas do centro e as coordenadorias de ensino, além de bloquearem as principais ruas e avenidas. Há um clamor geral para que o governador do estado, Ángel Aguirre, renuncie. É, desde logo, a maior crise para o mandato do Presidente da República Henrique Peña Nieto do PRI desde sua posse em dezembro de 2012. Escolas normais na zona rural têm larga tradição no país. Foram criadas na segunda década do século XX, logo após a revolução mexicana, para levar educação até às menores comunidades do campo. Durante o governo do general Lázaro Cárdenas na década de 30 ganharam o corte socialista e logo marxista que se mantém até hoje. Sucessivas reformas no sistema de ensino promovidas pela Secretaria de Educação Pública modernizaram o currículo transformando os cursos em nível terciário de formação de professores com 4 anos de duração. No entanto, cerca de 16 escolas (no total há 447 escolas normais com 127 mil alunos em todo o país, segundo o Sistema de Informação Básica da Educação Normal) dos estados de Oaxaca, Guerrero e Michoacán mantiveram suas estruturas tradicionais e se transformaram em núcleos revolucionários. Os dois maiores líderes guerrilheiros da década dos anos 1960 e 1970 – Genaro Vázquez e Lucio Cabañas – são originários da escola Raúl Izidro de Ayotzinapa. Hoje é comum ver os alunos encapuzados extorquindo motoristas nos pedágios da Estrada do Sol que leva a Acapulco, a pérola turística da região. Não pagar significa expor-se à violência. Os corredores da escola estão forrados de imagens de Che Guevara e de Fidel. Para matricular-se a única exigência é demonstrar que não pode pagar estudos em outro local. O governo não sabe o que fazer. De um lado lhes dá tudo, custeando integralmente o regime de internato com bolsa-estudo, alimentação, moradia, e de outro lado periodicamente atira para matar. A descrição dos alunos sumidos, a maioria entre 18 e 21 anos de famílias camponesas, dá bem uma ideia do seu perfil. Saul García durante anos levantou-se de madrugada para trabalhar no campo. Para Jorge Tizapa Legideño seu pai é uma carta com dinheiro que vez ou outra chega dos Estados Unidos. Carlos Lorenzo Hernández, o maior de quatro irmãos ajudava a família cortando pragas nas plantações de trigo a 150 pesos (R$ 27,00) por dia. Seus pais preferiam mandá-lo estudar mais perto de casa, mas nenhum centro de ensino por ali oferecia dormitório e comida grátis. Da escola escrevia contando que estava lendo Marx, Lênin e Don Quixote de la Mancha.

José Luis, narcoprefeito de Iguala e a esposa Maria de los Ángeles. O casal  mexicano sumiu após o tiroteio de Ayotzinapa.
José Luis, narcoprefeito de Iguala e a esposa Maria de los Ángeles. O casal mexicano sumiu após o tiroteio de Ayotzinapa.

Os resultados de tudo isso são desoladores: estudantes insurgentes agindo como black-blocs, policiais a serviço do tráfico, prefeitos cúmplices do crime, violência com sequestro e extorsão fazendo parte do dia a dia, governo estadual ineficaz assistindo à debacle e, para piorar, 47 jovens que se evaporaram, provavelmente chacinados.

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