Um salto, da Monarquia à República

1º ministro escocês, Alex Salmond, líder do movimento separatista

Este texto, o segundo da Série “Regimes de governo”, é uma reprodução do início do capítulo 4 do livro “O nome do presidente é dom Pedro” (Vitor Gomes Pinto, 2014 – Amazon.com; www.livrariasaraiva.com.br/produto/6864403).

A República, nunca verdadeiramente proclamada, mas instalada sem cobrar o sangue de um só brasileiro, fez questão de apagar o mais rapidamente possível o passado.  Procurou desvincular-se de tudo o que cheirasse a monarquia, mostrar-se moderna, ainda que seus principais próceres e as novas lideranças trouxessem na bagagem as mesmas roupas e os mesmos costumes, além dos preconceitos e ódios às classes inferiores ─ principalmente aos analfabetos e aos escravos ─ daqueles que acabavam de ser apeados do governo.

Deodoro da Fonseca, proclamado marechal e generalíssimo das forças de terra e mar, constituiu o governo provisório com os melhores expoentes do jacobinismo positivista e em geral também maçom de que dispunha: Campos Sales na Justiça, Benjamin Constant na Guerra, Eduardo Wandenkolk na Marinha, Quintino Bocaiúva nos Negócios Estrangeiros, Aristides Lobo no Interior, Demétrio Ribeiro na Agricultura e, para azar seu, o advogado baiano Ruy Barbosa na Fazenda. Menos de cinco meses depois, Floriano Peixoto entrou para o ministério no lugar de Benjamin Constant, defenestrado para a pasta de Instrução Pública, Correios e Telégrafos por ele mesmo criada. O Ministério não se entendia porque o único elemento em comum que unia os seus componentes era o desejo de livrar-se da máquina do Império. O exército era republicano e a marinha, desconfiava-se, monarquista.

Mesmo dentro do exército se digladiavam, sem sossego, velhos militares que apoiavam Deodoro e jovens oficiais cujo líder era Floriano. Positivistas adeptos de um governo forte e liberais completavam o quadro geral de desacordos, enquanto paulistas, fluminenses, mineiros e gaúchos buscavam cada um por si aumentar sua influência, embora baianos e pernambucanos continuassem a ocupar posições de relevo tanto na economia quanto junto ao governo central. Não havia como se esquecer dos jacobinos, que defendiam arduamente o centralismo político e econômico do Estado, irritando os liberais que, pelo menos em tese, lutavam por um poder magno mais aberto e menos intervencionista. Além disso, jacobinos eram adeptos da maçonaria francesa ateísta, ao passo que os liberais se filiavam à maçonaria regular, crente em Deus.

“Ao que parece, não mudou grande coisa”, comentou a bela dona Carminha, a sempre jovem esposa do Tonico, que dera para meter-se nas conversas da família desde que a República fora proclamada. ¾ Saiu dom Pedro II e entrou o general Deodoro que todo mundo conhece. E no lugar do Ouro Preto está o Ruy Barbosa.

¾ Não sei se as mudanças vieram para ficar, minha querida Carminha. “Com todo o respeito, se isso não é uma revolução, mesmo que pacífica, não sei o que é revolução ¾ apressou-se a explicar o seu marido, cada vez mais desconfiado com os modos de mulher solta da esposa. ¾ O decreto número um assinado pelo marechal mudou o regime para República Federativa, as províncias passam a ser estados e até o nome do país não é mais o mesmo. Somos a República Federativa dos Estados Unidos do Brasil. E vem ai a nova Constituição, porque a antiga não vale mais.”

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