A ameaça do vírus Chicungunya

Mosquito Aedes, responsável pela transmissão do vírus da dengue e da febre chicungunya

Na última 3a. feira, 16/9/2014, um homem  (53 anos) e sua filha (31 anos) que nunca saíram de Oiapoque no Amapá para países onde a doença existe, foram diagnosticados como portadores do vírus Chicungunya. É a primeira manifestação autóctone (originada no próprio país) de acordo com o Ministério da Saúde. Até hoje o Brasil tinha como confirmados 37 casos, todos adquiridos no exterior.

Mosquito Aedes, responsável pela transmissão do vírus da dengue e da febre chicungunya
Mosquito Aedes, responsável pela transmissão do vírus da dengue e da febre chicungunya

O texto a seguir é da autoria do Prof. Pedro Luis Tauil. Originalmente escrito para a Revista de Epidemiologia do SUS, foi gentilmente cedido pelo Autor para publicação no site.

A ameaça da febre do vírus chikungunya

Pedro Luiz Tauil – Professor da Faculdade de Medicina da UnB – Membro do Observatório da Saúde do DF

Chikungunya vírus (CHIKV) é um vírus enzoótico encontrado primitivamente em regiões tropicais e subtropicais da África, no sul e sudeste da Ásia e em ilhas do Oceano Índico. O nome chikungunya significa, em língua Makonde, “aquele que é contorcido”, caracterizando a postura dos pacientes causada pelas fortes dores articulares que apresentam. Pode haver casos graves e, desde 2005, casos fatais. O vírus chikungunya é transmitido por picada de insetos do gênero Aedes. Este vírus é conhecido desde o início da década de 1950, isolado de um paciente febril no atual território da Tanzânia. Já em 1954, foi confirmado na Ásia, num surto nas Filipinas e, posteriormente, em outros países, como Tailândia, Índia e Paquistão. Casos esporádicos e pequenos surtos foram registrados. Porém, reemergiu em 2005, passando a causar grandes surtos de doença humana, na Ásia, África e Ilhas do Oceano Índico. Essa reemergência deveu-se, provavelmente, a uma adaptação genética do vírus aos vetores da região.

O vírus pertence ao gênero Alphavírus e à família Togaviridae, do mesmo gênero dos arbovírus Mayaro e Ross River. Na África, os vírus mantem-se num ciclo de transmissão silvestre entre macacos e pequenos mamíferos, como morcegos, e mosquitos do gênero Aedes. Na Ásia, o ciclo de transmissão é diferente e o vírus circula entre seres humanos e mosquitos, resultando em epidemias urbanas, com a participação das espécies Ae. aegypti e Ae. albopictus, como principais vetores.  A infecção pelo CHIKV apresenta muitas semelhanças com dengue. O período de incubação varia de 1 a 12 dias, com uma média de 4 dias, seguido por febre alta repentina, dores agudas e persistentes nas articulações, cefaleia, fotofobia, mialgia e “rash” cutâneo. Em cerca de até 25% das pessoas, a infecção é assintomática. A poliartralgia caracteriza os casos sintomáticos. Os sintomas e sinais agudos da infecção pelo CHKV resolvem-se em cerca de 7 a 15 dias, mas as dores, rigidez e edema nas articulações podem durar meses e até anos, em 10 a 12 % dos casos. A idade acima de 45 anos, a presença de doença crônica concomitante e a maior intensidade das dores na fase aguda contribuem para a persistência da poliartralgia. Ainda não há vacinas preventivas e tratamento etiológico disponíveis. O vetor é o único elo vulnerável na cadeia de transmissão da doença

 

A dispersão de mosquitos do gênero Aedes pelo sul da Europa e continente americano, associada à presença de indivíduos infectados procedentes de áreas endêmicas, favorece o estabelecimento de novas áreas de transmissão da doença. Em 2007, Na região de Emilia Romagna, no norte da Itália, houve registro de mais de 200 casos autóctones. A partir de dezembro de 2013, a transmissão autóctone estabeleceu-se em ilhas do Caribe. No início de 2014, houve registro de casos autóctones na Guiana Francesa e no Suriname e atualmente há vários casos autóctones na Venezuela. Até 5 de agosto deste ano, 4 casos autóctones foram registrados na Flórida, nos Estados Unidos. Mais de 500 mil casos já foram confirmados e suspeitados nas Américas, até o momento, segundo a OPS/OMS, sendo a grande maioria no Haiti e República Dominicana (Ilha Espanhola).

Os conceitos de receptividade e de vulnerabilidade são fundamentais para avaliação da ameaça de transmissão local de uma doença. No caso do CHIKV, a receptividade é dada pela presença de vetores (principalmente Ae. aegypti e Ae. albopictus), em densidades de infestação capazes de iniciar e manter a transmissão. A vulnerabilidade refere-se à possibilidade de entrada do vírus, por meio de pacientes infectados, na fase de transmissibilidade da doença. No Brasil, estas condições parecem estar presentes, pois há registro da presença dos vetores na imensa maioria dos municípios, em densidades suficientes para transmitir dengue e, portanto, também CHIKV. O período de viremia da doença chikungunya, que corresponde ao período de transmissibilidade da doença aos vetores, é semelhante ao do dengue, e começa um dia antes e permanece até 7 dias após o início dos sintomas.

Pelo que se tem assistido em relação a outros países das Américas, é muito difícil detectar oportunamente a doença em viajantes procedentes de áreas endêmicas e muito menos mantê-los isolados para evitar o contato com mosquitos vetores. Dessa forma, infelizmente, parece que a transmissão local da doença no Brasil é uma questão de tempo. A grande movimentação de turistas por ocasião da Copa do Mundo gerou muita preocupação com o risco de entrada do CHIKV no Brasil. Por outro lado, todos os casos diagnosticados no país, desde 2010, no Rio de Janeiro e São Paulo, e desde o início do ano até o momento, em oito Unidades Federadas, ainda não chegaram a desencadear transmissão autóctone. Vários outros países da América do Sul também já registraram casos importados, como Argentina e Paraguai. É fundamental que os profissionais de saúde fiquem atentos para diagnosticar clínica e oportunamente os casos suspeitos, segundo definições do próprio Ministério da Saúde. O Brasil já está capacitado para confirmar a infecção na rede de laboratórios de referência para arboviroses. Pelas características das dores nas articulações, os reumatologistas são os especialistas que provavelmente terão os primeiros contatos com esses pacientes.

 Referências

  1. Organización Panamericana de la Salud y Centers for Diseases Control and Prevention. Preparación y respuesta ante la eventual introducción del virus chikungunya en las Américas. Washington, D.C.: OPS, © 2011
  2. Albuquerque, Isabella Gomes Cavalcanti de et al. Infecção pelo virus Chikungunya: relato do primeiro caso diagnosticado no Rio de Janeiro, Brasil. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. [online]. 2012, vol.45, n.1, pp. 128-129

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