Guerra santa consome Síria e Iraque

O Estado Islâmico do Iraque e do Levante – ISIL na sigla em inglês – domina hoje cerca de 20% do território sírio e iraquiano, o equivalente a cerca de metade do estado de São Paulo. Tido como o mais radical e cruel dos grupos terroristas em ação no mundo, foi criado por Al Zawahiri (o sucessor de Bin Laden no comando da Al Qaeda) nos subúrbios de Bagdá em outubro de 2006 durante a ocupação do país pelos Estados Unidos, com a intenção de unificar as milícias sunitas então desarvoradas pela queda do regime de Sadam Hussein. Acusando a Al Qaeda de já não seguir os preceitos do Islã e atacando-a numa ação na qual assassinou alguns de seus lideres, seu chefe Abu Bakr al-Baghdadi decidiu atuar por conta própria. Com base na linha mais rígida da sharia, a lei islâmica, ordenou uma jihad ou guerra santa para combater o Ocidente, os hereges xiitas e os infiéis cristãos, formando um califado que desconhece os Estados e as fronteiras impostas pelas grandes potências após a 2ª. Guerra, estendendo sua bandeira negra numa faixa contínua a leste de Damasco e a oeste de Bagdá.

Analistas procuram explicar o súbito fortalecimento e a rapidez da expansão do ISIL com um conjunto de fatores: a) debilidade dos adversários graças à política inconsistente e autoritária do presidente xiita Nuri al-Maliki que isolou e perseguiu a minoria sunita – 35% da população – sem resolver os problemas econômicos que geram mais pobreza e intenso desemprego; b) ideologia clara traduzida na formação de um Estado Islâmico, proposta atrativa para um número crescente de combatentes (já são 11 mil homens) que ao se engajarem na luta destruíram seus passaportes fossem eles sírios, iraquianos, tunisianos, líbios, russos, georgianos, europeus; c) uso de extrema violência e da estratégia de expandir a área de conflito ao invés de consolidar de imediato as cidades capturadas, com base numa eficaz tática de guerrilha; d) erros elementares da ocupação norte-americana ao desmantelar o exército de Sadam Hussein e substituí-lo por forças débeis e sem experiência como se viu na tomada de Mosul, a 2ª. maior cidade do país, quando desertaram despindo seus uniformes e abandonando pelo caminho grandes quantidades de modernos armamentos, incluindo veículos e até um helicóptero vendidos pelos Estados Unidos; e) capacidade de obter recursos, como no saque dos cofres do Banco Central de Mosul que rendeu 400 milhões de dólares e reservas em ouro. Grandes campos produtores de petróleo e centrais elétricas tomados pelo califado em Tikrit e outras localidades seguem fornecendo gasolina e energia para os residentes nas capitais e grandes cidades em torno.

A cem quilômetros ao norte de Aleppo, a fronteira da Síria com a Turquia está sendo protegida com fervor pelos jihadistas por ser a única via para contrabandear gasolina, armas e principalmente os combatentes estrangeiros que cada vez mais se somam ao ISIL. No vídeo difundido mundo afora que mostraria a bárbara decapitação do americano James Foley, o carrasco é um britânico do distrito londrino de Tower Hamlets, provavelmente Abdel-Majed Abdel Bary, um dos componentes do trio conhecido como “Os Beatles” que, falando um inglês perfeito, toma conta dos ocidentais seqüestrados pelo ISIL. Na Europa, além do Reino Unido, há vários focos de formação de jihadistas. Localizados principalmente em Ceuta, Melilla, Madri (onde a Brigada Al Andalus foi desmantelada há poucos dias), nos distritos holandeses de Schilderswijk em Haia e de Scharebeek em Bruxelas ou de Norrebro em Copenhagen, ou em Paris, Lille e Marselha onde os muçulmanos controlam bairros inteiros. Estima-se que de 3 mil estrangeiros nas filas do Estado Islâmico, 1/3 seja de chechenos.

Na região o apoio à jihad vem dos reinos salafitas da Arábia Saudita e do Catar. Embora nem todos os salafitas (ou wahabitas) apóiem o uso da violência, todos os grupos islâmicos violentos de alguma maneira beberam dessa fonte como informa o jornal espanhol El País. Já o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, que controla uma rica região petrolífera autônoma no Iraque, combate ao lado do governo. Os curdos (são quase 35 milhões considerando os que vivem na Turquia, Síria e Irã) votaram ao lado dos xiitas para aprovar, nove anos atrás, a Constituição vigente no Iraque e então recusada pelas comunidades sunitas.

Os Estados Unidos, que segundo o secretário John Kerry consideram que o ISIL precisa ser eliminado, estão prestes a fazer uma surpreendente aliança com Bashar al-Assad, que é alauita, um ramo da fé xiita, o que possibilitaria lançar uma ofensiva, também com o apoio do Irã, contra o califado de al-Baghdadi dentro do território sírio. Os arqui-inimigos de hoje se uniriam para derrotar o adversário comum e depois voltariam a brigar.

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