Sudão do Sul: hospitais arrasados

Construído pelos Médicos Sem Fronteiras há 25 anos e em pleno funcionamento como o único centro de atenção especializada para a região em torno da cidade de Leer, o hospital com 30 leitos foi saqueado, queimado e destruído (vide imagem ao lado), assim como a maioria dos prédios da cidade, pelas forças militares que combatem o governo no Sudão do Sul.  O mesmo espetáculo de horror pode ser visto nas vizinhas localidades de Malakal, Bor, Nasir e Bentu. Desde dezembro, quando o atual conflito se agravou, pelo menos 58 profissionais do setor saúde foram assassinados, fazendo com que toda e qualquer assistência médica deixe de ser prestada exatamente no momento em que a população dela mais necessita. No ataque ao hospital público de Bor, quatorze pacientes e um funcionário do Ministério da Saúde foram mortos a golpes de adaga e tiros de fuzis.

A história do Sudão do Sul começou há justos três anos quando um acordo de paz e um plebiscito colocaram fim a 21 anos de guerra civil e o país se tornou independente do Sudão, cujo presidente Omar al Bashir (no poder desde 1989), não pode viajar ao exterior para não ser detido pela Interpol em cumprimento a mandato de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional por ter promovido o genocídio de Darfur onde 500 mil sudaneses marcados como não-árabes perderam a vida. Agora o conflito se dá entre tropas e milícias leais ao presidente Salva Kiir Mayardit da etnia Dinka e ao vice Rick Machar  que pertence à tribo dos Lou Nuer.

As Nações Unidas deslocaram 5.500 capacetes azuis que estavam aquartelados por perto, no Congo, Costa do Marfim, Libéria e nas regiões sudanesas de Abbey e Darfur, aumentando para 12.500 homens o efetivo da missão sediada em Juba (a capital) e até aqui incapaz de interferir e deter um dos mais bárbaros conflitos que assolam a África atual. Os combates já deixaram milhares de mortos e 45 mil refugiados em abrigos da ONU. Três outros fatores potencializam a crise humanitária: a epidemia de desnutrição e fome que se junta ao estado sanitário cada vez mais precário da população; a temporada de chuvas torrenciais que se prolonga isolando vastas áreas do interior nas quais pacotes de mantimentos, agasalhos e medicamentos estão sendo lançados do ar pelos helicópteros de ajuda internacional mesmo sem a certeza de que chegarão a quem deles depende para sobreviver, e a questão petrolífera. Os campos de petróleo, localizados nos estados limítrofes com o Sudão e que representam cerca de 95% do PIB sul-sudanês, estão sendo gradativamente paralisados à medida em que as companhias produtoras são obrigadas a retirar seus funcionários.

Para Ban Ki-Moon, Secretário Geral das ONU, “não há solução militar para essa guerra, pois se trata de uma crise política que requer solução pacífica”. A declaração, inteiramente fora de contexto, revela acima de tudo a imensa debilidade de sua organização para impedir a repetição de massacres cujo único resultado é a metódica e regular dizimação das comunidades afetadas.

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