Crianças latinas invadem os Estados Unidos

No albergue Belén de Saltillo – capital do estado mexicano de Cohauila próximo à fronteira – até a pouco chegavam quatro crianças por dia e agora são quarenta, todas desacompanhadas. Entre elas algumas são garífunas, os negros caribenhos, zambos africanos que há muito formaram guetos pela América Central e permanecem tão pobres quanto a multidão de 80 mil meninos e meninas que, vindos de Honduras, Guatemala, El Salvador e do próprio México, este ano já entraram ou até dezembro invadirão os Estados Unidos pela vasta fronteira de 3.142 km ao sul, pelos estados de Arizona, Novo México, Califórnia e Texas. A tentativa de passagem que era pelos rios Colorado e Grande agora precisa desafiar as duras condições do deserto, com preferência por Nogales onde há acesso às poucas brechas que restam na muralha de 563 quilômetros (o Muro de Berlim tinha 87 km) que serpenteia ao longo da divisa. Cruzá-la pressupõe iludir as três bordas de contenção, a iluminação de alta intensidade, os detectores de movimentos com visão noturna, a vigilância permanente das camionetas, motos, helicópteros policiais e, talvez o pior, escapar dos esquadrões da morte que informalmente por ali proliferaram a partir do 11 de setembro com o objetivo de impedir a entrada de quem quer que, sem autorização, queira “poluir” o território yankee.

Muralha que, em pleno deserto, separa México e Estados Unidos
Muralha que, em pleno deserto, separa México e Estados Unidos

Quem são essas crianças, porque e como viajam? A fim de responder a essas inquietantes questões a Conferência de Bispos Católicos dos EUA enviou em novembro último uma missão à América Central para constatar que há múltiplas causas: ausência de oportunidades econômicas, violência generalizada inclusive no meio familiar, recrutamento forçado ou não por organizações criminosas como o cartel Los Zetas dedicado ao tráfico de drogas, armas e seres humanos, ou gangues nacionais como MS-13, Malva Salvatrucha, Barrio 18 (estima-se que em 2012 tinham 55 mil malfeitores atuando na Guatemala, El Salvador e Honduras). É difícil impedir que o fluxo se eternize. As remessas dos que saem para os que ficam representa cerca de 13% do PIB de cada um desses países e os bancos e imobiliárias baseiaam suas estratégias de venda nesse tipo de  cliente.

Em geral o primeiro que parte é o filho mais velho, maior de idade. Meses ou anos depois seguem os irmãos e irmãs menores. As famílias empenham o que possuem para pagar ao Coiote cerca de 5 mil dólares pelo “bilhete de passagem”. Antes são contatadas pelos “Recrutadores” – figuras de destaque na comunidade como professores, médicos, políticos – que possuem o ansiado número de telefone ou o endereço do Coiote. Estes são os operadores de uma organização complexa e plurinacional (pois atuam em pelo menos três países) encarregada de serviços de falsificação de documentos, transporte e planejamento da viagem da qual não participam. Os grupos, costumeiramente de um só sexo, são acompanhados por um Guia que se responsabiliza pelos gastos, alimentação, subornos em postos fronteiriços. Dependendo das condições e da intensidade das patrulhas de vigilância, a aventura pode durar de 15 dias a um mês em sua jornada final, de travessia do deserto, feita à noite com repousos durante o dia em pousadas de quinta categoria e pouca comida. Grupos de socorro, formados por entidades humanitárias, costumam deixar garrafas de água atadas a árvores que muitas vezes podem representar a diferença entre a vida e a morte. Os garotos estão sujeitos a tudo, desde abusos sexuais e prostituição até extorsão, agressões, obrigação de transportar drogas e até assassinatos. A maioria não chega a seu destino. Ainda assim, os coiotes são benquistos e protegidos por parte da população de origem que os considera como a única chance de escapar da miséria. “Viajar ao norte não é um luxo, é uma necessidade”, dizem.

O trecho final, junto ao ponto de entrada, precisa ser feito a pé, é o mais curto e o pior. O Guia paga o suborno, apresenta a documentação, mas o momento é de alta tensão e não há qualquer garantia de sucesso. Quem não conseguir tentará de novo no ano que vem. Os que passam e são apanhados pelo serviço de migração vão para Centros de Acolhida de Menores. Os de nacionalidade mexicana são deportados de imediato com base no acordo binacional existente, mas os demais caso não apresentem o nome de um parente residente nos EUA esperarão até atingir a maioridade para só então serem devolvidos a seus países.

A nova lei de migração, bloqueada na Câmara dos Representantes pela maioria republicana, não assegura direitos de recepção legal e cidadania a menores indocumentados, mas ainda assim o boato que corre pela América Latina é de que “se você quer entrar nos Estados Unidos a hora é esta”. Obama enviou o vice Joe Biden para reunir-se com os presidentes da região e explicar-lhes que “não estamos abrindo as portas a qualquer menor que chegue à fronteira.” Os efeitos dessas palavras são pouco mais que nulos. As cidades limítrofes assistem à multiplicação de mortes e mutilações nas areias inclementes do deserto e nas montanhas dos arredores, ademais do espetáculo diário das deportações e do abandono a que são submetidas as crianças nos seus asilos. A Associação Nacional de Comunidades Latinoamericanas e Caribenhas – NALACC, com sede em Chicago, está recolhendo fundos para assistência às crianças migrantes, numa débil tentativa de reduzir os efeitos de um fenômeno que cada vez mais se caracteriza como uma inaceitável crise humanitária.

Be the first to comment

Deixe seu Comentário

Seu e-mail não será publicado.


*