Curdos, xiitas e sunitas engalfinham-se no Iraque

Onze anos após a morte de Saddam Husseim e três anos passados do início da guerra da Síria, surge um novo e surpreendente espaço político no explosivo Oriente Medio : a criação de um país com regime ainda mais radical do que os já existentes num vasto território que redesenha as fronteiras, um Califado sob o comando de Abu Bakr al-Baghdadi à frente do grupo Estado Islâmico no Iraque e no Levante – ISIS na sigla em inglês. Os Estados Unidos que retiraram suas tropas de Bagdá em dezembro de 2011 agora assistem, abismados, a combatentes sunitas do exército iraquiano despindo suas fardas e abandonando voluntariamente armas, tanques e equipamentos (pagos em dólares) nas mãos dos invasores no norte do país. Vale lembrar que na origem está a formação do moderno Iraque com suas fronteiras artificiais resultantes da repartição colonial do Oriente Medio feita por britânicos e franceses, ao final obrigando muçulmanos de todas as crenças e curdos a coabitarem em uma nação, inexequível desde o nascimento, da qual não se sentiam partes.Combatentes do ISIS preparam-se para executar prisioneiros xiitas no norte do Iraque (AP - 140616074608_isis_murders_624x351_ap_nocredit.jpg)

A situação, para quem não está acostumado às práticas de alianças e confrontos na arena internacional, é sui generis, pois está impondo uma inesperada associação entre EUA, Irã e até a Síria de al-Assad numa fórmula que segundo a revista New Yorker se baseia na máxima popular de que “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”. Unem-se temporariamente para combater o ISIS e, depois, caso resolvido o problema, voltam às velhas brigas de costume. De fato, o regime xiita de Teerã apóia a continuidade, por razões de credo, de Bashar al-Assad na Síria e de Nuri al-Maliki no Iraque, não importa o que façam. Já os Estados Unidos, que como sempre fazem questão de ignorar as questões religiosas locais, sustentam os rebeldes sunitas que querem derrubar o ditador sírio mas, no vizinho, combate-os para evitar que fortaleçam os terroristas do ISIS. Dito de outra forma, na Síria os EUA estão apoiando rebeldes sunitas contra o regime de al-Assad, o amigo do Irã, e no Iraque tanto os americanos quanto os iranianos apoiam os xiitas na luta contra os sunitas

O governo de Nuri al-Maliki, o 1º ministro que substituiu Saddam Hussein,  é xiita e como tal o principal responsável pelo caos atual porque tem sistematicamente perseguido a minoria sunita (30% da população) do país, expulsando seus membros do exército e dos empregos públicos ao ponto de tornar insustentável a convivência entre esses dois ramos do Islã e também com os curdos (10% dos iraquianos).  Para completar o quebra-cabeças, Obama e Hassan Rohani, o presidente da república iraniana, discordem em relação ao futuro de Maliki. O Irã deseja mantê-lo como está ao passo que os EUA defendem uma efetiva divisão do poder entre os três grupos no poder executivo. Atualmente há um acordo – na prática fracassado – pelo qual o 1º ministro é xiita, o presidente que é figura decorativa é um sunita e o porta-voz do Congresso um curdo.

O ISIS é um movimento jihadista (guerra santa aos não-islâmicos) surgido em abril do ano passado como uma dissidência da al-Qaeda que desautorizou sua ação. Não obstante, o grupo não só prosseguiu como se tornou, gradativamente, mais forte que que a própria al-Qaeda e hoje é tido como a principal ameaça terrorista no Oriente Médio. Al-Baghdadi, nascido provavelmente em 1971 na cidade iraquiana de Samarra, ao norte de Bagdá, tem carisma, afirmando-se que seus milhares de seguidores incluem combatentes britânicos, alemães, norte-americanos, além dos recrutados nos países vizinhos e no Cáucaso. Sua proposta é de formar um novo estado islâmico, tão ou mais radical que o talebã afegão, tendo a Baghdadi como seu Emir. Ao invadirem o território iraquiano, embora numericamente pouco significantes, ocuparam com facilidade as áreas de predominância sunita, ocupando Mosul, a segunda maior cidade do país. Em seguida tomaram Kirkut, onde está a refinaria de Beiji, mas logo foram desalojados pelo exército da província autônoma do Curdistão que combate ao lado das forças xiitas e deseja participar na nova divisão do poder em Bagdá. A perda de Beiji seria um golpe dificilmente assimilável, seja porque ai se produz mais de 1/4 do petróleo consumido no país, seja porque seu destino é essencialmente o mercado interno, fornecendo gasolina, óleo e combustível para as centrais elétricas. Na imagem ao lado, da agência AP, combatentes do ISIS preparam-se para justiçar a prisioneiros xiitas no norte do Iraque.

Não há solução de curto prazo em vista. O principal clérigo xiita convocou seu povo às armas enquanto o Estado Islâmico prometeu marchar sobre Bagdá e sobre as cidades sagradas de Karbala e Najaf onde se encontram alguns dos mais venerados santuários nacionais, nesta que é a mais seria crise que o Iraque, afundado no sectarismo, enfrenta desde a completa retirada das forças de ocupação norte-americana.

 

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