Três eleições sem rumo

Os padrões democráticos continuam predominantes mundo afora e as eleições baseadas no chamado sufrágio universal costumam ser apresentadas como o símbolo da participação popular, uma medicina contra todos os males do absolutismo, do militarismo e, modernamente, do terrorismo. Logo após a queda do regime militar, Sarney como presidente orgulhava-se de ter transformado o Brasil no país das eleições. Enquanto isso, pleitos organizados mesmo sob condições impraticáveis foram realizadas no Iraque, no Afeganistão, na Bolívia e na Somália. Na prática, houve uma acomodação geral por parte tanto das oligarquias tradicionalmente dominantes quanto dos eleitores, de modo que as eleições acabaram sendo “domesticadas”. Acontecem porque são inevitáveis, mas não são muitos os exemplos em que realmente podem ser vistas como sinônimo de uma ampla e irrestrita liberdade de escolha por parte do povo que, desiludido com a corrupção e a ineficiência dos políticos, simplesmente optou por evitar as urnas. No momento assiste-se a três exemplos pouco edificantes para a causa da democracia, na Colômbia, na Ucrânia e no Egito.

Rumo ao infinito
Rumo ao infinito

No país sul-americano, pela primeira vez após cinqüenta anos de enfrentamento insolúvel entre as Forças Armadas e a guerrilha, a paz vem sendo costurada a duras penas pelo governo de Juan Manuel Santos e pelas Farc, num processo de lentos avanços sediado em Havana. Para que dê o resultado que em princípio todos almejam – fim dos combates e a reinserção da mais antiga guerrilha do mundo na sociedade  – é evidente a necessidade de mais tempo, que está sendo negado pelos eleitores colombianos ao darem a Óscar Zuluaga, o candidato apoiado pelo guerreiro ex-presidente Álvaro Uribe, a vitória no 1º turno realizado neste domingo. Zuluaga, 48 anos, com  fama de bom gerente, promete acabar com as negociações de paz e arrochar o cerco militar e policial tanto sobre as Farc quanto sobre o ELN, justificando uma vez mais a fama da elite colombiana de não ser confiável, motivo principal para que a guerra nunca termine. Em menos de vinte dias haverá o 2º turno, no qual Santos mantém grandes chances de reeleger-se. Na Colômbia não frutifica o voto útil. Zuluaga obteve 29% das preferências, contra 26% de Manuel Santos, 15% de Martha Ramírez do Partido Conservador, 15% de Clara López do Polo Democrático e 8% de Enrique Peñalosa da Aliança Verde. Os três perdedores serão poderosos fieis da balança, mas o grande desafio estará em convencer o povo a votar, o que não é obrigatório na Colômbia. Em conseqüência, 60% dos eleitores ficaram em casa. Dos que apareceram, quase 8% deixaram a cédula em branco ou a anularam. Cabe a pergunta: quem se importa com a paz?

No leste europeu poucos apostavam em que o governo provisório da conflagrada Ucrânia – onde a Criméia já está perdida e as províncias do leste forçam a anexação à Rússia – seria capaz de realizar eleições nacionais neste 25 de maio. Na média geral menos da metade dos eleitores exerceram seu direito ao voto, mas nas regiões pró-russas de Donetsk (o aeroporto foi bombardeado e afinal retomado pelo exército ucraniano) e Lugansk o comparecimento às urnas limitou-se a 10%. Triunfou o bilionário Piotr (Petro) Poroshenko com 57% dos sufrágios contra 13% de Yulia Timoshenko. Conhecido como Rei do Chocolate é o 7º homem mais rico da Ucrânia e o 18º do mundo graças à Roshen, megaempresa do setor confeiteiro e aos seus negócios como proprietário do Canal 5 de televisão e de grandes revendedoras de carros, ônibus, navios, etc. Foi o único oligarca a apoiar a Euromaiden, revolta que no final do ano passado derrubou o regime corrupto de Viktor Yanukovitch. Acusado de pertencer ao “lobby do gás”, aposta numa conversa com Putin para pacificar o país. Surpreendentemente os ferozes ataques contra ele por parte do Pravda e da direcionada mídia russa cessaram nas últimas semanas. Promete unir-se à União Européia, mas não à OTAN, acatar o russo como segundo idioma, valorizar o Hryvnia – desgastada moeda nacional -, opor-se à federalização desejada por Moscou, vender a Roshen e reconstruir a Ucrânia como uma só nação. Será capaz de fazer tanto?

O terceiro caso é o Egito, onde 54 milhões foram habilitados a escolher apenas entre o general Abdel Fatah al-Sisi, ex-Comandante-em-Chefe das Forças Armadas e responsável pelo golpe que derrubou o governo islâmico de Mohammed Morsi, e o “esquerdista” Hamdin Sabahi, uma candidatura que serve unicamente para justificar a realização do pleito (tem 2% das intenções de voto). Boicotam as eleições por as considerarem uma farsa, a Irmandade Muçulmana que tem milhares de ativistas condenados à morte por tribunais sumários, e os grupos políticos de oposição Nour Party, Ghad-el-Thamra, Aliança Nacional de Suporte à Legitimação, Movimento 6 de Abril, Partido da Força Egípcia. A previsão é de que o quórum de 2011, quando de fato votaram 54% dos eleitores potenciais, desta feita será ainda menor. Sisi, a exemplo dos presidentes anteriores que se transformaram em ditadores, por certo terá vida longa no poder na cidade do Cairo. O Exército, que ele continuará comandando, domina mais de 40% da economia egípcia.

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