Rússia, o czar e a Ucrânia

Quarenta mil soldados russos aguardam, na fronteira com os territórios do leste ucraniano, a ordem do czar para atacar um inimigo que não tem como se defender. Esperam encontrar alguma resistência, pois a tomada da Criméia não teve a menor graça, uma vez que nenhum tiro foi dado.

Separatistas de fala russa em barricada frente a prédio público em Donetsk (REUTERS/Gleb Garanich)
Separatistas de fala russa em barricada frente a prédio público em Donetsk
(REUTERS/Gleb Garanich)


No outro lado, cumprindo o roteiro traçado por Putin e pelo recém defenestrado presidente Yanukovych, comandos de ativistas insuflam grupos étnicos radicais na tomada de prédios públicos em Kharkiv, Lugansk e Donetsk. No distrito de Slavyansk (Donetsk), grupos de mascarados vestindo uniformes verdes, autodenominando-se de cossacos e agindo como black blocs, dizem que pretendem “unir o que judeus como Trotsky desuniram”. Nas três províncias vivem 9,5 milhões de pessoas. A maioria fala o idioma russo, mas muitas famílias são mescladas graças a casamentos inter-étnicos e a convivência racial que, pelo menos até agora, costumava ser pacífica e produtiva.

A propaganda soviética invade incessantemente os lares dos que agora são chamados de “nossos filhos”. O Pravda na edição de domingo perguntou a seus leitores se a Rússia deve interferir no caso de Kiev começar a guerra civil, insinuando que o governo ucraniano, ao qual acusa de ter dado um golpe fascista, deseja a quebra definitiva da ordem. Em seguida afirma que “os Estados Unidos estão empurrando a crise para níveis perigosos” e adverte que “o ataque à Rússia está montado”, criando um ambiente artificial, mas cada vez mais preocupante, de confronto leste&oeste. Por último, ignora os muitos bilionários russos para fixar-se na figura de Rinat Akhmentov, o riquíssimo presidente das indústrias SCM e do time de futebol Shaktar Donetsk, chamando-o de oligarca e de chefe da máfia ucraniana. Os dois lados não querem a guerra, mas qualquer incidente pode deflagrá-la com conseqüências inimagináveis apesar do claro desequilíbrio de forças: Moscou tem o 3º orçamento bélico do planeta, só inferior aos dos EUA e da China, e quase sessenta vezes superior ao de Kiev.

Para entender as perspectivas do confronto nada melhor do que analisar a biografia dos seus comandantes. Vladimir Vladimirovich Putin, 62, é um militar afeito aos campos de batalha nos quais está em seu elemento natural. Chegou ao posto de tenente-coronel na KGB, o serviço de inteligência da antiga União Soviética e graças à renúncia de Boris Yeltsin assumiu a presidência do país em janeiro de 2000, posto onde permanece até hoje, com um ligeiro intervalo tático entre 2008 e 2012 quando se tornou o 1º Ministro na gestão do amigo Dmitry Medvedev. O atual mandato é de seis anos (quatro por cumprir). No lado ucraniano, após a derrubada de Yanukovych, assumiu um governo interino sob a presidência do pastor batista e romancista Oleksander Turkinov, 50, ex-braço direito de Yulia Timoshenko que foi encarcerada pela administração nacional anterior. O 1º Ministro é o tecnocrata Arseniy Yatsenyuk, 39, um advogado e economista que já foi presidente do Parlamento mas, assim como Turkinov, não tem a menor familiaridade com as artes da guerra. Estão no comando com a complexa tarefa de realizar eleições para o Executivo e o Legislativo em 25 de maio próximo.

A anexação da Ucrânia oriental, mesmo que militarmente possível, teria um preço demasiado alto para Putin devido à perda da banda ocidental e à inevitável ruptura com os Estados Unidos e União Europeia. A divisão em duas da Ucrânia criaria, afinal, uma nova e extremamente turbulenta fronteira. Uma guerra civil não é solução para ninguém mesmo porque, considerando as tradições dessa parte do mundo, poderia levar à trágica repetição do ainda recente conflito da ex-Iugoslávia, tempos aos quais muitos se referem como piores do que os vividos sob o nazismo hitlerista. A Ucrânia se quer continuar sendo um só país (sem a Crimeia) precisa manter sob controle os russo-falantes do leste, algo que, no entanto, já é uma impossibilidade por implicar numa opção militar que o seu precário governo tenta levar avante sem ter como suportá-la. Talvez o sonho estratégico do czar seja voltar a manter forte influência política sobre a Ucrânia por meio da eleição de um novo governo pró-russo em 25 de maio. É, afinal, para isso, que ele está desestabilizando a administração provisória ucraniana. Ademais, todos os lados e principalmente o Ocidente, terão de lidar com o enorme déficit acumulado por Kiev, com um débito impagável pelo gás que lhe é fornecido por Moscou a preço de ouro.

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