Crimeia abandona Ucrânia a seus velhos problemas

Passou-se apenas um mês do momento em que (num sábado, 22 de fevereiro) a pressão tornou-se insuportável e 328 deputados, incluindo os da situação, decretaram o impeachment do presidente ucraniano Viktor Yanukovych.

Vitali Klittschko, na foto esmurrando a Briggs Wallpaper, quer comandar a Ucrânia
Vitali Klittschko, na foto esmurrando a Briggs Wallpaper, quer comandar a Ucrânia

Na ocasião o Comandante-em-Chefe das Forças Armadas declarou que suas tropas não iriam para as ruas, permanecendo neutras como manda a Constituição, ou seja, não defendeu o regime. A ex-1a. ministra Yulia Timoshenko, condenada a 7 anos de prisão, foi libertada e discursou em praça pública, ovacionada pela multidão. Enquanto Yanukovych fugia para a Crimeia, sua terra natal, Vladimir Putin dizia a Obama que tentaria ajudar a Ucrânia, não falando em intervenção soviética. Já o rabino Moshe Azman, no que depois se revelou como uma atitude precipitada, pedia aos judeus que abandonassem Kiev e se possível o país, com receio de que recentes ataques a alvos israelitas se repetissem.

Reunido com o chanceler russo Sergey Lavrov, o Secretário de Estado John Kerry comunicou que o referendo pela separação da Crimeia nem era considerado válido nem deveria ser realizado. Contudo, não havia razão para ceder. As reclamações das potências ocidentais caíram no vazio e não tiveram qualquer efeito prático. No domingo 16 de março o povo de uma Crimeia ocupada por tropas soviéticas colocou seus votos nas urnas (transparentes como que para demonstrar a honestidade do processo) e por 97 contra 3 optou, como declarou um eleitor de Sevastopol – onde multidões comemoraram nas ruas o resultado -, por “voltar para casa”. Após 60 anos pertencendo à Ucrânia em obediência à decisão do então 1º ministro Nikita Krushev, que nasceu na Crimeia, a península retornou aos braços da “mãe Rússia”. Embora não houvesse um só observador ocidental neutro para acompanhar as eleições e a apuração, jornalistas de veículos como o britânico The Guardian informaram que ninguém declarou ter sido forçado a escolher a quem apoiar. Dentre as opções disponíveis – aderir a Moscou ou transformar-se em um país autônomo -, dada a clara inviabilidade desta última hipótese, massivamente todos preferiram a proteção de Putin.

Diante da forçosa nacionalização dos bancos ucranianos, discute-se como ficarão as dívidas que estavam um hryvnias e agora terão de ser pagas em rublos (o câmbio é de 3,6 por 1, a favor da moeda da Ucrânia). No entanto, o problema da divisão étnica (há pelo menos 25 etnias no país, mas 58% da população é russa, 24% ucraniana e 13% tártara) permanece e em alguns casos se agrava. Em cidades como Bakhcisarai e Pionerskov, de forte predomínio tártaro, os postos eleitorais ficaram às moscas, engrossando o contingente dos que não votaram: 17% da população. A ideia predominante é de que ucranianos, tártaros e armênios, dentre outros, não têm futuro sob uma Crimeia russa. Vale recordar que Josef Stalin deportou estes dois últimos povos para a Ásia Central, num processo radical de limpeza étnica só em parte revertido após a queda do muro de Berlim.

Enquanto os EUA, o FMI e a União Europeia desenham um pacote de emergência em ajuda financeira e militar à Ucrânia, seu governo provisório liderado pelo ex-ministro da Fazenda Arsenyi Yatsenyuk (cuja primeira providência foi mudar o idioma da placa de seu escritório de advocacia, do russo para o ucraniano) prepara as eleições previstas para 25 de maio. Os prováveis candidatos não parecem nada animadores: Yulia Timoshenko pela agremiação Batkivshchyna (Pátria); o multimilionário e independente Petro Poroshenko; o igualmente riquíssimo Serhiy Tihipko pelo Partido das Regiões do presidente deposto e, com chances reais de vitoria, o campeão mundial dos pesos pesados  Vitali Klitschko, líder no Parlamento do movimento UDAR, sigla que significa “soco” em ucraniano. Conhecido como  “Punhos de Aço”, na carreira profissional obteve 45 vitórias, 41 das quais por nocaute, mas tem mestrado em desenvolvimento social e foi dos mais ativos líderes da agora denominada Revolução Ucraniana de 2014.

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