Vôo 370 revela iniquidades do governo malaio

O mistério que cerca a inexistência de pistas minimamente confiáveis do destino do vôo MH370 da Malaysia Airlines, tem como efeito colateral desnudar perante o mundo o verdadeiro caráter do governo malaio, uma semi-ditadura de quase seis décadas que trata as minorias, principalmente de chineses e indianos, como uma sub-raça. Num artigo exemplar sobre as consequências de anos e anos de esquecimento e desprezo pela democracia, originalmente publicado no The New York Times e reproduzido pelo Estadão (vide texto integral a seguir), Thomas Fuller, correspondente para o sudeste asiático do NYT  comenta a falta de costume das autoridades de fornecer respostas à sociedade. Enquanto isso, totalmente confusas, as autoridades agora vasculham as residências dos tripulantes e de suas famílias, causando-lhes ainda mais espanto, tristeza e revolta, em busca de uma improvável comprovação da teste de sabotagem.

A ineficiência exposta ao mundo

Busca por avião desaparecido há 12 dias mostra incompetência do funcionalismo da Malásia, que exclui outros grupos étnicos

19 de março de 2014 | 2h 02
Thomas Fuller* – The New York Times/O Estado de S.Paulo

A elite que governa a Malásia agarra-se ao poder desde que o país se tornou independente da Grã-Bretanha, ininterruptamente, há quase 60 anos, com uma combinação de rígido controle das informações, intimidação da oposição e, até recentemente, um vigoroso crescimento econômico. Mas a perplexidade do mundo inteiro diante do desaparecimento do voo MH370 da Malaysia Airlines contesta a cultura política paternalista do país e expõe uma liderança mimada ao julgamento feroz dos críticos de todo o globo. Líderes civis e militares revelaram na semana passada que sabiam havia quatro dias, mas não divulgaram, que radares militares tinham recebido sinais do que poderia ser o avião desaparecido. Ele aparentemente voava para oeste, consideravelmente distante da rota que o voo deveria seguir até Pequim. Somente depois de pressionadas a responder a uma avalanche de perguntas, as autoridades admitiram que o último ponto registrado pelo radar mostrava que o jato voava na direção do Oceano Índico. A admissão levou a indagar sobre o motivo pelo qual a informação não fora divulgada mais cedo.

“O mundo finalmente está sentindo a frustração que nós experimentamos há anos”, declarou Lee Ee May, consultora de administração e ex-assessora de um político malaio da oposição. Lee disse que se sentiu constrangida quando o ministro da Defesa malaio, Hishammuddin Hussein, pertencente a uma poderosa família de políticos, repudiou a afirmação de um repórter, segundo o qual a busca do avião era desordenada. “Só há confusão se você quiser que seja vista como confusão”, retrucou o ministro. Relativamente pouco afetada por desastres naturais e outras calamidades, a Malásia não tem muita experiência em gerenciamento de crises nesta escala. Além disso, ela tem uma sociedade etnicamente polarizada em que o talento muitas vezes não chega ao topo do governo em razão da política de apadrinhamento do partido governista e de um sistema de preferências étnicas que desestimula ou bloqueia as minorias do país – principalmente os chineses e os indianos étnicos – a ingressarem no funcionalismo público.

Os malaios étnicos, que constituem cerca da metade da população, detêm quase todos os cargos mais altos no governo e recebem uma série de preferências do governo em razão de seu status de “filhos da terra”. A legislação autoritária tem ajudado a manter no poder o partido governista, a Organização Nacional dos Malaios Unidos – e a oposição em ascensão sob controle.

No dia anterior ao desaparecimento do voo 370, o líder da oposição, Anwar Ibrahim, foi condenado a cinco anos de prisão segundo uma lei contra a sodomia que quase nunca foi aplicada. Os críticos consideraram o caso uma tentativa de bloquear o crescimento da oposição numa época em que a popularidade do partido do governo está em declínio. Na semana passada, um tribunal condenou Karpal Singh, outro político da oposição, por sedição, com base numa lei que vigorava na época da colônia. “Chamamos isso de perseguição, não de processo legal”, disse Ambiga Sreenevasan, advogado e ex-líder do conselho dos advogados da Malásia. O governo está acostumado a obter o que quer e a crise em torno do avião desaparecido faz com que as autoridades agora sejam responsabilizadas, algo com o qual não estão acostumadas, disse Ambiga. “Os malaios aceitaram que os seus líderes não respondam às perguntas”, ela disse. “Quando as pessoas não são questionadas seriamente, de nenhuma maneira significativa, evidentemente passam a sentir-se satisfeitas e confortáveis consigo mesmas.”

Para um país relativamente próspero de 30 milhões de habitantes, menos conhecido internacionalmente do que nações vizinhas como Tailândia e Cingapura, as iniciativas confusas para descobrir o paradeiro do avião resultaram num comparecimento problemático e indesejado de suas autoridades no cenário mundial. A crise leva a refletir sobre o motivo pelo qual o governo parece descoordenado e incapaz de estabelecer fatos aparentemente básicos sobre o voo.

As autoridades insistiram por três dias que algumas bagagens foram retiradas do avião antes da decolagem quando cinco passageiros não embarcaram. Mas o chefe de polícia disse depois que essa informação era falsa. Nenhuma explicação foi dada para as notícias desencontradas. Ibrahim Suffian, diretor do Centro Merdeka, um instituo de pesquisa de opinião, disse que a resposta à crise deixou evidente uma falha de precisão tanto do governo como da sociedade como um todo. “Temos a tendência de não fazer muitas perguntas e de não esperar muito como resposta”, disse Suffian

 A crise mostrou ainda a falta de competência do governo que Suffian atribuiu à deferência para com a autoridade e à relutância a tomar iniciativas. “Sempre predominou a atitude: ‘vamos esperar as instruções do governo’.” Entretanto, entre as críticas aos esforços para encontrar o avião há também o reconhecimento de que o desaparecimento do voo 370 é algo tão inusitado que talvez nenhum governo estivesse totalmente preparado. “É praticamente uma situação única”, afirmou Ramon Navaratnam, economista que estudou em Harvard e ex-funcionário público de alto escalão. “Qualquer um estaria desprevenido.” Por enquanto, as autoridades malaias encontram-se praticamente imobilizadas na posição nada invejável de ouvir muitas perguntas e ter poucas respostas. “Elas nunca enfrentaram tanta pressão para agir como agora”, disse Lee. “Mas nesse momento o olhar do mundo inteiro está sobre elas. E elas não têm onde se esconder.”

*Thomas Fuller é correspondente para o sudeste asiático do ‘NYT’.

 

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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