Vinho e saúde: atualizando conhecimentos

Desde a descoberta de que o consumo de vinho era o responsável maior pelo chamado paradoxo francês, ou a constatação epidemiológica de uma baixa incidência de doenças coronarianas em populações com alto consumo de gorduras saturadas na dieta, os estudos a respeito dos efeitos do vinho sobre a saúde se multiplicaram e hoje temos farta informação disponível que nos permite superar dúvidas e afirmar certezas. Não se trata de uma novidade, considerando que a primeira referência ao uso medicinal do vinho está nos papiros egípcios e sumérios de 2.200 A.C. O famoso estudo internacional coordenado pelo professor Salim Yussuf de Ontário em 2004 sobre fatores de risco para Infarto Agudo do Miocárdio, conhecido como Interheart e que revolucionou as práticas de saúde cardiovascular no mundo, constatou os efeitos protetores do consumo moderado de álcool. Em seu número de junho último, o American Journal of Enology and Viticulture publica uma completa revisão sobre o tema (Wine and Health: a Review– http://www.ajevonline.org/content/62/4/471.full) feita por dois mestres no tema, os professores John Pezzuto e Jacquelyn Guilford da Universidade Hawaii at Hilo. O trabalho, subsidiado pelo Instituto Nacional do Câncer dos EUA (do qual os dois são pesquisadores graduados há vários anos), fundamenta-se numa análise de 228 dos mais atuais estudos disponíveis na literatura científica mundial.

As conclusões obtidas não deixam margem a dúvidas, confirmando os benefícios para a saúde advindos do consumo regular e moderado de vinho, particularmente vinho tinto rico em polifenóis (substâncias naturais antioxidantes como o resveratrol que bloqueiam os efeitos nocivos dos radicais livres), que tem sido associado à diminuição do risco para problemas cardiovasculares, diabetes tipo 2 e vários cânceres. Os polifenóis também reduzem a agregação das plaquetas (prevenindo o surgimento de trombos) e as inflamações sistêmicas, além de aumentarem a função endotelial com o que evitam a formação do LDL, o mau colesterol. Embora vários componentes como as antocianinas e os flavonóides tenham uma ativa participação, a chave do processo é o resveratrol presente nas sementes e na casca da uva, por alterar o metabolismo lipídico e inibir a oxidação do LDL, tornando-se um potencial cardioprotetor, ademais de se opor ao crescimento de alguns tumores e agir como anti-inflamatório, neuroprotetor, antibacteriano e antiviral, entre outras características.

Consumo regular e moderado significa a ingestão de uma dose (150 ml) por dia para as mulheres e o dobro disso para os homens, mas é preciso considerar condições individuais como idade, genética, porte, uso de medicamentos. As vantagens deste padrão de consumo são perdidas quando beber vinho é algo apenas eventual (só no fim de semana, ainda que a quantidade total ingerida seja a mesma) ou pesado. Os efeitos positivos para a saúde aumentam quando associados a uma dieta saudável, como a mediterrânea que combina o vinho com uma alimentação rica em frutas, vegetais e grãos integrais. Adicionar vinho à dieta de indivíduos saudáveis, que não fumam, praticam exercícios e têm peso controlado resulta em menor ocorrência de infartos e outras doenças, quando comparados aos abstêmios.

Não há uma resposta fácil para a pergunta: qual vinho é o mais saudável? É possível que os mais tânicos e ricos em procianidina, um tipo especial de polifenol. Um exemplo está nos vinhos tintos do sudoeste da França (Cahors, Bergerac) e da ilha italiana da Sardenha que contém até quatro vezes mais procianidina do que os das demais regiões, uma provável razão para a maior longevidade dos seus habitantes. No todo, vinhos tintos são mais benéficos que os brancos.

Mesmo se fosse viável eleger um determinado vinho como sendo o mais saudável, essa verdade poderia mudar no ano seguinte, pois cada safra é influenciada pelo tipo de solo, clima, inseticidas ou variações sazonais. Em essência duas garrafas do mesmo vinho não têm exatamente a mesma composição e os procedimentos de estocagem e o tempo de envelhecimento depois que é vendido podem alterar seu perfil químico.

O álcool é um reconhecido fator carcinogênico. Não obstante, há evidência de que o consumo moderado de vinho pode diminuir o risco a diversos cânceres, como os de cólon, ovário e próstata. Em pacientes tomando uma taça de vinho ao dia observou-se um menor risco de desenvolver Esôfago de Barrett, um precursor potencial de adenocarcinomas. O artigo proporciona referências detalhadas de estudos especificamente relacionados às interações entre vinho e câncer, assim como para diabetes, hipertensão, efeitos neurológicos, gastrointestinais, entre outros. Enquanto uma ou duas doses ao dia são benéficas, três ou mais podem favorecer a manifestação de sintomas neurodegenerativos, depressão, obesidade, enxaqueca, hipertensão, infarto cardíaco, câncer de mama e demais alterações ligadas ao alcoolismo. A possibilidade de efeitos tóxicos está sempre presente quando não há um rígido controle de contaminantes (resíduos de pesticidas, ácido acético, bactérias, chumbo, etc.) por parte de cada país e de cada região produtora.

O estudo ainda lembra que o vinho não é um substituto para um regime de vida sadio nem para a medicação (e sim um parceiro) eventualmente necessária. Homens e mulheres que consomem vinho de maneira leve ou moderada e que estejam livres de complicações médicas podem, enfim, ficar seguros de que este é um hábito saudável.

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