Três anos de Primavera Árabe: para quê?

Por um motivo justo, mas irrelevante ─ um policial confiscou sua banca de frutas pelo não pagamento da propina que lhe era costumeiramente devida ─ em 18 de dezembro de 2010 o jovem Mohamed Bouazizi acendeu o fósforo imolando-se na praça central da pequena localidade de Ben Arous, vizinha a Tunes, em protesto contra as injustiças do mundo e contra a corrupção. Foi a fagulha que incendiou a população que já estava nas ruas, levando-a a derrubar em apenas 28 dias a ditadura do presidente Zine Abidine Ben Ali. A Revolução do Jasmin foi a precursora de movimentos populares que se espraiaram em distintos graus de intensidade, na chamada Primavera Árabe, da Tunísia para a Líbia, Egito, Marrocos, Síria, Iêmen, Bahrein, Omã, Argélia, Mauritânia, Iraque, Líbano, Kuwait.

O terceiro aniversário não poderia passar em branco. Na verdade exigia uma comemoração à altura, bombástica, e as forças norte-americanas que estão no Iêmen combatendo o terrorismo internacional, não deixaram por menos. No árido altiplano da província de Baída, ao sul do país, uma festiva caravana se deslocava, vencendo vagarosamente o chão pedregoso de estradas por vezes inexistentes, rumo à cidade de Rahda onde celebrariam um casamento sunita, numa típica cerimônia iemenita. Para o Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC na sigla em inglês) que opera na região com o apoio da CIA, contudo, a inocente caravana que supostamente carregava os noivos e suas famílias era apenas um disfarce que permitia a locomoção de perigosos elementos da Al Qaeda, de forte presença em Baída. Sem condições de comprovar suas suspeitas, por via das dúvidas o JSOC decidiu atacar e o fez por meio de um drone (veículo aéreo não tripulado) que bombardeou com precisão cirúrgica o cortejo, matando pelo menos 17 civis e deixando mais de 30 feridos. Alguns poucos veículos de comunicação dos Estados Unidos perguntaram o que aconteceria se o ataque tivesse ocorrido no território nacional. Como foi no Iêmen, o assunto em seguida “morreu” sem qualquer explicação, pois quem se interessa por algumas vítimas a mais, além disso não americanas, naquele quase fim de mundo?

A revolução pacífica e idealista inicialmente resultou numa extraordinária euforia para povos árabes que pela primeira vez conquistavam o direito de externar suas queixas e opiniões em praça pública. Os dezenove países árabes mesclam regimes civis autoritários em geral com firme base militar a um conjunto de oito reinos e emirados sustentados pelas reservas minerais que representam metade do petróleo e um quarto do gás do planeta. Já no segundo ano veio a contra-revolução, inspirada pelos temores das monarquias do Golfo e dos comandos militares. O resultado foi a guerra. A intervenção externa na Líbia promoveu a execução de Muammar Kadhafi substituindo-o por um governo débil que não consegue controlar as centenas de milícias que espalham o terror pelo país. No Egito o afastamento de Osni Mubarak não significou mudança, pois o regime ficou intacto e ainda reuniu forças para derrubar o governo eleito de Mohamed Mursi em julho último e para reprimir com renovada violência a oposição muçulmana. No Bahrein a tentativa de derrubar o rei Isa al-Khalifa fracassou graças à intervenção armada dos sauditas. O ditador Bashar al-Assad continua no posto sustentado pelo apoio russo, mas a guerra civil síria já ocasionou mais de 126 mil mortes e milhões de refugiados nos países vizinhos. Os enfrentamentos prosseguem na Argélia, apesar de Abdelaziz Bouteflika ter sido reeleito na presidência em pleito com nível recorde de abstenção. No Marrocos, no sultanato de Omã e na Jordânia até agora as expectativas por reformas e democratização não se concretizaram. A queda de Ali Abdullah Saleh após 33 anos como ditador e a posse de seu vice não trouxeram a paz ao Iêmen, onde o grupo da Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA) domina boa parte do país apesar da presença norte-americana.

Militares e muçulmanos continuam predominantes no cenário árabe. Eleições (livres dentro do possível) têm sido ganhas pelos mais bem estruturados partidos islâmicos como nos casos do Egito e da Tunísia. A Irmandade Muçulmana é um movimento com 82 anos de vida e vem sobrevivendo mesmo quando o colocam na clandestinidade. Em síntese, a Primavera Árabe resultou num crescimento do islamismo como força política, mas quando os grupos religiosos chegam ao poder não resistem à tentação de implantar a Sharia, a lei de Alá, gerando a rejeição de grande parte da sociedade. No entanto, a situação parece estar mudando. De um lado, o clima de guerra permanente é insustentável porque conduz à formação de estados falidos como já se desenha nos casos do Egito, Líbia, Síria e Iêmen. De outro lado, as velhas desculpas que têm justificado os regimes de exceção nos últimos 60 anos cada vez mais perdem sustentação, ou seja, não adianta mais colocar as culpas no colonialismo e imperialismo ocidental e na presença do estado de Israel. Além disso, é indiscutível que os palestinos precisam de uma solução territorial, mas a sua causa já não é o fator principal que move os líderes árabes. Se a Primavera Árabe, com todo seu imenso potencial de canalização de energias positivas inovadoras, pretende chegar a algum lugar, terá de resolver pelo menos seus muitos conflitos armados internos e atingir um estágio de militância política islâmica que permita uma convivência razoavelmente harmônica com as demais crenças e correntes de opinião.

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