Síria: a grande batalha

A Primavera Árabe chegou àquele que sempre foi seu verdadeiro objetivo de médio prazo: a derrubada de Bashar al-Asad na Síria. A mais longo prazo as armas poderão ser assestadas contra o inimigo maior do ocidente: o Irã dos aiatolás e de Mahmoud Ahmadinejad. Por ora seria suficiente remover do caminho o regime imperante em Damasco, único aliado regional remanescente ─ ao lado do Hezbollah libanês ─ de Teerã. Os combatentes tomaram suas posições no campo de batalha: de um lado o atual governo sírio sustentado pela Rússia e pela China; de outro o Exército Livre da Síria – ELS – com apoio de Estados Unidos, Inglaterra, França, Israel, Turquia e das monarquias do Golfo. A estratégia de armar o ELS e fornecer-lhe inteligência bélica resultou no surpreendente ataque à capital que matou quatro componentes do mais alto escalão governamental (o ministro da Defesa, seu vice e cunhado de Asad e dois chefes da unidade máxima de segurança nacional), mas não é suficiente para vencer a guerra civil síria que pode prolongar-se e durar anos. 

Em 1963, quando o partido Baath tomou o poder, estabeleceu-se a aliança entre Síria e Rússia, consolidada quando a família al-Asad deu o golpe em 1970, primeiro com Hafed e desde 2000 com seu filho Bashar no poder. Milhares de jovens sírios foram enviados, ano após ano, a Moscou para estudarem e receberem instrução militar. Apaixonaram-se pelas mulheres russas, costume que vigora até hoje (mais de 30 mil russos, a maioria mulheres e crianças, vivem na Síria), selando uma aliança fortalecida por generosos créditos prioritariamente direcionados ao fornecimento de armamento que entre 2007 e 2010 chegaram a 4,7 bilhões de dólares. Não por acaso as tropas que atacaram as posições rebeldes em Homs o fizeram em modernos tanques de guerra russos e a base naval de Tartus, a única que Moscou mantém fora do território das ex-repúblicas soviéticas, está mais ativa do que nunca. As propostas de intervenção apresentadas no Conselho de Segurança da ONU, que tiveram sucesso no caso da Líbia, agora foram bloqueadas pelo veto da Rússia e da China.

Não é pela tradição nem por ligações comerciais diretas (os negócios entre os dois países não chegam a US$ 2,5 bilhões anuais, 90% em exportações chinesas) que a China apoia Damasco e sim pelo temor de que se repita o que aconteceu na Líbia, onde uma autorização para proteger a população civil se transformou num ágil movimento que levou à derrubada de Khadafi. É essa autorização que está sendo negada no caso da Síria. De um lado, na prática o maior prejudicado pela Primavera Árabe tem sido Pequim que viu desabarem suas lucrativas e cada vez mais promissoras interações econômicas no Oriente Médio e no norte da África. De outro lado, a simples menção da palavra democracia causa verdadeira ojeriza a Vladimir Putin e a Hu Jintao, ciosos de suas próprias autocracias. Em consequência, a súbita consolidação do eixo Moscou-Pequim, saudado com entusiasmo pelo Irã, é uma novidade cada vez mais preocupante para o ocidente.A Liga Árabe, que em novembro último suspendeu de seu convívio a Síria (dos 19 governos sunitas que a compõem, somente o Iêmen votou contra), força a renúncia de al-Asad, temerosa de que no futuro se forme um Crescente Shiita composto por Irã, Iraque, Síria e Líbano. Dentre as monarquias do Golfo ─ um bloco de reinos, emirados e sultanatos árabes que receia ser atingido pela onda de liberalização que se espalha no seio de seus povos graças às facilidades dos meios de comunicação ─ duas, principalmente, exercem forte pressão: Arábia Saudita e Qatar que possuem o que os demais não têm: dinheiro para financiar as investidas do ELS, um grupo que já teria cerca de 45 mil milicianos, constituído alegadamente por desertores do exército sírio mas que, na verdade, reúne mercenários desempregados das recentes guerras da Líbia e do Iraque, incluindo um número não determinado de ativistas da organização terrorista Al Qaeda. Suas bases de operação estão na limítrofe província turca de Hatay e possivelmente também no Líbano e nos países vizinhos.

Nesse tabuleiro de xadrez político, as minorias étnicas e religiosas presentes na Síria (cristãos, curdos, drusos) preferem a manutenção de Asad, tanto por que têm sido aceitas pelo regime vigente quanto pelo medo de serem expulsas pelas hordas de radicais muçulmanos que, dizem, tomariam o poder no caso de uma vitória do ELS. O que acontecerá nas próximas semanas e meses é uma incógnita, pois todos temem uma generalização do conflito com a entrada efetiva de tropas e armamentos pesados iranianos e russos ao lado de Asad para enfrentar forças invasoras terrestres que contariam com milicianos turcos e de algumas das monarquias árabes em torno. Um entendimento na mesa de negociações do Conselho de Segurança da ONU é pouco provável, ao menos de imediato, mas pode ser viabilizado para impedir uma nova guerra total. 

Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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