Névoa de algodão

– Quem está aí?

A pergunta não tinha razão de ser. Ninguém poderia responde-la e ele sabia disto. Sabia-o desde muito tempo, na verdade desde que fora abandonado naquele território sem fim, sem limites e sem vida. Não havia possibilidade de sair, fugir do limbo em que se encontrava e voltar para o lugar de onde viera.

É verdade que, com o passar do tempo, isto deixou de ter tanta importância pois esquecera de como era antes, restando uma incerteza até mesmo quanto ao fato – até então inconteste – de que ele realmente provinha de alguma parte.

– Quem está ai?, repetiu num fio de voz que, no entanto, tinha força suficiente para ecoar como se fora uma batida num tambor, naquele ar rarefeito que o cercava.

Felizmente aprendera a respirar com cuidado, não permitindo que seus pulmões se saciassem como no começo teimavam em querer. Compreendera bem que se o ar era pouco, seu dever principal se resumia em consumi-lo com modéstia e sem sofreguidão, para durar mais. Desconfiava que mesmo assim não estava fazendo o suficiente e tinha poucas dúvidas de que mais adiante não teria o que respirar. Por isso, todos os dias se dedicava a uma prática que lhe custava um imenso esforço, mas que para o futuro na certa valeria a pena. Aspirava o ar como que em pequenos goles procurando só reter uma mínima parte, a que achava suficiente para manter o próprio organismo funcionando. Culpava-se porque ainda não aprendera a ter este mesmo controle durante o sono, período durante o qual gastava quantidades verdadeiramente absurdas de oxigênio.

Em diversas ocasiões tentara fugir deste que cada vez mais parecia ser o seu destino, inexorável. Caminhara com determinação em todas as direções possíveis. Algumas vezes sem querer andava em círculos de maneira que terminava retornando exato para o ponto de partida até que desistia mesmo sem estar cansado.

Estranho, mas provavelmente graças àquela atmosfera e a uma umidade surpreendentemente baixa, podia caminhar um dia inteiro que os músculos não doíam e não sentia necessidade de parar. Com isto, não precisava fazer exercícios físicos, tarefa que de toda forma seria impensável e fatalmente lhe encurtaria definitivamente a vida, pois em poucos minutos engoliria quase todo o pouco ar disponível.

Outras vezes conseguia traçar uma linha reta imaginária e prosseguia em frente até atingir o fim do seu mundo, uma área totalmente indefinida, sem consistência, onde a neblina se adensava formando algo parecido a uma parede de algodão. O chão começava a ficar movediço na medida em que ele se aproximava da região com a névoa mais densa, junto à parede esbranquiçada. Talvez pudesse saltar sobre o ignoto a fim de agarrar-se a algum apoio na parede, ou — quem sabe — se o impulso fosse realmente forte, conseguiria ultrapassá-la. Costumava faltar-lhe coragem para tanto, predominando um enorme e invencível medo pelo que o esperava no outro lado.

Sonhava com freqüência cada vez maior com este salto, feito da mais fantástica força de vontade que em qualquer tempo alguém poderia possuir. Retesava os músculos com tanta violência que a dor se tornava quase insuportável e fixava o olhar no infinito como se fora um tigre pronto para dar o bote sobre a vítima. Tornava-se febril, sentia-se arder em chamas ao mesmo tempo em que travava uma luta intensa contra a covardia e contra a prudência, ambas querendo impedi-lo de tomar a única decisão que teria chance de salvá-lo.

O problema era que o sonho não chegava realmente a um fim. Raras vezes ultrapassava o momento do impulso e, mais dificilmente ainda, o salto infernal se concretizava. Quando isto acontecia, sentia uma dor lancinante no peito e as imagens se turvavam, perdendo imediatamente a nitidez. Em duas ocasiões fora possível superar a dor e as trevas, mas as dúvidas não puderam ser esclarecidas. A parede era mais espessa do que imaginara e ao chegar no que deveria ser o outro lado, uma luz de incrível intensidade o ofuscara de maneira tão absoluta que se vira obrigado a dar-lhe as costas retornando ao nevoeiro para ser rapidamente tragado de retorno ao eterno mesmo começo do sonho. Nessas ocasiões, despertava em um repente, tomado por suor intenso que o banhava da cabeça aos pés mesmo nas noites mais frias. E chorava até consumir-se na desesperança.

Sua audição era tão delicada que nesse sentido poderia perfeitamente comparar-se a um morcego. Por que lhe viera justo a imagem de um morcego? Na certa porque este era o animal que melhor retratava o que ele estava fazendo: verdadeiros vôos na escuridão, guiado por um misterioso radar que ao menos o impedia de chocar-se contra as barreiras invisíveis que sabia existir.

Pensou ter perguntado de novo: “quem está ai?” Na realidade não o fez. Estava cercado por um mundo sem sons, onde os únicos ruídos que costumava ouvir eram os feitos por ele mesmo. A inexistência de animais ou de pessoas, a ausência de rios e de ventos ocupavam todos os espaços. Como ouvir sons se estes não eram produzidos?

Raciocinar, cada vez mais, passou a constituir o seu trabalho principal. Convencera-se de que tudo o mais era inútil, portanto não valia a pena despender qualquer esforço com coisas ou atitudes que sempre o conduziriam ao nada, além de ajudar a consumir o bem mais precioso que ainda possuía.

Dali em diante decidiu dedicar-se a duas atividades fundamentais: pensar e respirar. No primeiro caso, com máxima intensidade; no segundo, com toda moderação possível. Logo, descobriu que não eram tarefas fáceis de serem cumpridas à risca. Distraía-se com assombrosa freqüência como agora, caminhando nevoeiro adentro só para checar a absurda possibilidade de que houvesse alguém rastejando por lá. Seu organismo também trabalhava em sentido contrário a ele próprio, pois como não se cansava, teimava em exigir movimentos: os músculos, principalmente os das pernas de repente começavam a estirar-se e em seguida a flexionar-se de tal forma que se ele o permitisse logo começava a saltitar e, quem sabe até onde isto o poderia levar, a correr qual um maluco qualquer. Os braços eram menos exigentes, mesmo porque era possível mantê-los cruzados e, em último caso, amarrados com umas tiras de plástico que descobrira em cima da caixa grande.

Sentia-se culpado por ter tocado na caixa, levado pela curiosidade irracional que o fizera andar para um lado aparentemente nunca antes trilhado do nevoeiro. Caminhara feito um tonto, sem rumo definido, até que de repente batera em alguma coisa. Fora um acontecimento de certa forma inconcebível porque não se tratava de um monte de areia, o único obstáculo que vez ou outra interrompia o trajeto monótono percorrido por seus pés.

Retangular e tão alta que lhe chegava praticamente ao peito, a caixa de madeira estava fechada por uma frágil tramela de alumínio. Caso um animal ou uma pessoa tivesse sido preso dentro dela, por certo conseguiria sair depois de pressionar a tampa com um pouco de força, de dentro para fora. Nada ou ninguém aparentemente forçara qualquer dos lados do misterioso objeto. Tudo indicava que estava intacto.

Como teria ido parar ali? Ou será que sempre estivera naquele lugar, até mesmo muito antes da sua chegada? Este pensamento era inquietante, pois com ele se via obrigado a novamente considerar que viera de outra parte, de outro mundo ou de outro nevoeiro. Lembrou-se que já desistira de buscar eventuais origens pessoais, estando inteiramente conformado com a duvidosa existência atual. Logo descartou as preocupações e as dúvidas. Encontrara a caixa, ali estava ela, tão alta que continuava formando uma linha reta exato acima do mamilo esquerdo do peito.

O fato de que o mamilo esquerdo fosse um pouco mais elevado do que o direito intrigava-o sobremaneira, mas esta questão poderia ser esclarecida através do raciocínio mais tarde. Uma de suas narinas sempre parecera mais achatada que a outra, como se alguma vez tivesse levado um murro, e a orelha direita possuía uma dobra a mais que lhe dava um certo aspecto de criatura extraterrestre. Também o joelho… Os pensamentos novamente se perderam, num triunfo evidente do espírito desatento que o dominava há tantos dias e noites fazendo da vida uma sucessão interminável de imaginações que nunca se concretizavam.

Naquele momento, do mais fundo do seu ser crescia o desejo, a vontade de erguer a mão, mover alguns dedos – dois deles, o polegar e o indicador seriam suficientes – e abrir a caixa para saber o que continha.

Conteve-se a tempo. Afinal, com que direito tomaria tal atitude? Não havia qualquer dúvida de que ela não lhe pertencia. Resolveu ir embora, mas, por via das dúvidas, marcou o caminho com as tiras para ter certeza de que conseguiria voltar até ali algum dia. Não conseguia mais dormir, o que de certa forma podia ser considerado uma vantagem, pois assim ficava livre dos pesadelos que cada vez com maior freqüência o atormentavam. Pensava sem parar na sua descoberta, tentando explicá-la sem sucesso.

A hipótese mais provável era de que a caixa sempre existira ou, pelo menos, existia há muito e muito tempo, não se deteriorando só porque o nevoeiro a protegera contra qualquer agressão. Neste caso, poderia ter guardados dentro de si alguns dos segredos do universo. E se a própria origem da vida ganhasse enfim uma explicação? Claro que se fosse possível descobrir onde e a partir do que exatamente começara a vida, tudo o mais – inclusive o futuro – poderia ser explicado. Será que encontraria alguma alma nesse começo ou mesmo depois dele? Nunca levara a sério a existência de almas, embora concordasse que esta era a explicação mais cômoda para a própria existência humana.

Passou a sofrer e a ficar cada vez mais confuso, alternando sentimentos de medo e de tentação pelo desconhecido. Perdeu a conta de quantas vezes retornou até a caixa. Ia, caminhava em torno dela observando-a na expectativa de que algo acontecesse, mas não tinha coragem de abri-la.

Um dia, não agüentou mais. Num acesso de autêntica loucura correu em desespero, mas em silêncio; jogou-se sobre a tímida fechadura e a forçou num golpe só, surpreendendo-se ao vê-la saltar, descrever uma breve parábola no ar rarefeito até estatelar-se com um baque surdo num ponto impreciso do nevoeiro. Num átimo a tampa da caixa pareceu livrar-se de um incômodo secular, escancarando-se sem pudor algum.

Não sentiu odores nem ouviu qualquer barulho além do estalido e do ranger que acompanharam o rompimento e depois o rápido saltar da tampa.

Ergueu-se na ponta dos pés, embora isto não fosse de fato necessário e olhou dentro da caixa. Lá estava tão somente uma pedra que parecia toda arredondada mesmo que não desse para enxergar sua base. Para vê-la toda teria que entrar e erguê-la com as próprias mãos. Primeiro tentou movê-la de onde estava, forçando da direita para a esquerda e de cima para baixo. Nada. A bicha continuava lá, inarredável.

Mantendo um pé apoiado no chão, lançou o frágil corpo para cima e depois de conseguir algum apoio inclinou-se ao máximo, mas dessa maneira conseguiu quando muito tocar numa área próxima à base da pedra, que devia ter mais ou menos um metro e meio de comprimento e uns sessenta ou setenta centímetros de espessura. Não era grande e, no entanto, não se movia um milímetro sequer para qualquer lado por mais que ele empurrasse. Entrar poderia representar um grande risco. Seria um desafio definitivo ao poder do desconhecido.

Retornou uma vez mais à sua cama improvisada, dessa feita disposto a esquecer a fantástica aventura em que se metera. Começou a dar-se conta de que tudo aquilo poderia não ser real. Ele próprio seria real? No fundo, não tinha como assegurar-se da própria existência. Talvez já tivesse morrido. Não que acreditasse nessas coisas de vida após a morte, feita de céus e infernos com intermináveis andanças e assombramentos, mas como explicar a situação em que se encontrava?

– Quem está ai? -, tornou a perguntar num sussurro ao ter a nítida sensação de um súbito movimento atrás de si.

Virou-se e correu, correu no encalço do seu próprio fantasma. Se ainda fosse possível comportar-se racionalmente, ficaria imóvel à espera de um sinal mais nítido de realidade. Não sabia se havia algo, não sabia de mais nada, só queria chegar a algum fim, a algum destino, a qualquer descoberta. Enquanto suas pernas o levavam cada vez mais depressa para o fundo do nevoeiro, sentia-se ofegante e terrivelmente culpado por estar consumindo tal quantidade de oxigênio naquela correria insana.

O encanto que o obrigara à disparada cessou num repente. Sem surpresa constatou que viera parar novamente ao lado da caixa. Encontrara-a sem necessidade de seguir a trilha de plástico. Dessa feita não fora ele quem a encontrara e sim ela que o puxara até ali. Quis fugir, mas para onde iria? Tentou deixar abandonar-se, nada mais pensar e não o conseguiu. Seu cérebro parecia decidido a nunca mais deixá-lo em paz.

Subitamente sentiu uma incontida irritação tomar conta de todo seu ser. Esta era uma surpreendente novidade: a capacidade que o organismo demonstrava de reagir a estímulos externos de qualquer tipo. No caso eram estímulos negativos, desagradáveis. Procurou recordar a última vez em que ficara zangado, triste ou alegre com alguma coisa, mas a memória teimava em trai-lo, mostrando somente um grande vazio de lembranças, o mesmo vazio que o acompanhava desde que se dera conta de estar num nevoeiro sem saída.

Começou a escalar a caixa. Primeiro erguendo a perna direita, jogando-a por sobre um dos bordos, em seguida apoiando as duas mãos numa das laterais para finalmente alçar o corpo inteiro, voar como um velho pássaro e cair cambaleante com as pernas abertas tendo a pedra embaixo, sem a tocar em nenhum instante. Pronto, agora teria de erguê-la. Isto parecia óbvio e inevitável mesmo porque a desconhecida energia que o conduzira até aquele ponto não parecia satisfeita.

Já não perguntava “quem está ai?”. Não era mais preciso porque chegara ao seu destino, sabia-o bem. Aquela caixa e aquela pedra lá dentro eram afinal o motivo, a explicação para a sua vida dentro da névoa, para a ausência de tudo, para o abismo e a parede de algodão. Como no momento que antecede a morte, quis enxergar um resumo da própria existência. Parece que houve um espoucar como se fosse o flash de uma câmera, mas de novo o que viu foi o “fog” vazio de tudo. Abaixou-se pouco a pouco até colocar com firmeza os dedos sob a pedra, nos dois lados, perto dos extremos. As palmas das mãos começaram a esquentar, avermelhar-se e arder. Suportar o abrasamento um minuto, um instante a mais se transformou numa tortura. Tentou largar a pedra. Impossível, constatou horrorizado. Estavam unidos e transformados em uma só criatura ou em uma única rocha.

Só uma alternativa lhe restara. Com as mãos já quase em carne viva, pareceu renascer com a força de um Hércules e num arranco tremendo levantou a pedra caindo de costas contra a parede oposta.

O espetáculo que se seguiu foi indescritível. Aparentemente liberara uma espécie de engenho ou até mesmo um ser com gigantesca capacidade de sucção. De imediato começou a formar-se imenso redemoinho, muito parecido ao que surge por efeito de um tornado. Um rumor surdo e intenso acompanhava a agitação cada vez maior de todo o ar em volta.

Curioso que nada o atingia. Era um observador privilegiado e aos poucos começou a entender o que de fato acontecia. A força contida na cratera do fundo da caixa estava absorvendo com incrível rapidez o nevoeiro, obrigando-o a esvair-se e a consumir-se sem deixar rastro ou lembrança.

Quando toda a névoa desapareceu, sentiu os braços e as mãos, que não mais ardiam, serem novamente comandados pela força invisível, levando-o a dar novo salto e a colocar a pedra exatamente na sua posição original. Ato contínuo, tanto o rumor quanto o redemoinho cessaram. Algo agora o empurrava para fora.

Obedeceu de boa vontade, mesmo porque do outro lado o esperava um céu azul e uma pradaria de beleza arrebatadora. Encantado, caiu e rolou pela grama irretocável, deliciando-se. Abriu os olhos e viu uma bela mulher que o fitou com ternura e beijou seus lábios. A caixa desaparecera, mas teria de fato algum dia ou em algum lugar existido?

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