Emergentes nas ruas

Duas constatações são determinantes quando se observa o que hoje acontece nas ruas: jovens pertencentes a famílias de classe média têm sido, historicamente, ao menos os iniciantes das revoluções e o extraordinário crescimento econômico que beneficiou o mundo a partir dos anos 1970 resultou numa explosão desse estrato econômico nos países antes periféricos. Não parece diferente, embora ainda esteja longe do que se poderia chamar de uma verdadeira revolta popular, o caso do Brasil atual. De cada dez manifestantes derramados pelas vias das principais cidades brasileiras nas últimas semanas, nove têm diploma ou estão cursando o ensino superior ou médio e cinco ganham acima de 5 salários-mínimos (R$ 3.390,00). Desde 2003, segundo o IPEA, cerca de 40 milhões de pessoas ascenderam da classe D para a classe C que já responde por 55% da população. São os filhos dessa categoria emergente que, agora, dizem que querem mais, que não estão satisfeitos com o pouco que lhes foi concedido em troca dos impostos que passaram a pagar. Não se sentindo representados pelos políticos, há tempos pedem serviços públicos eficientes, transporte, escolas, atenção à saúde de qualidade e a preços que possam pagar. Em resposta receberam estádios de futebol e uma sucessão interminável de casos de corrupção sem a punição final dos corruptos.

A onda de protestos que desde 2011 já alcançou mais de vinte países não se limitou à primavera árabe e às nações mais afetadas pela crise européia, chegando a New York, Santiago do Chile, Cidade do México, a Israel, Indonésia, Canadá, Bulgária e Rússia. São movimentos cíclicos, agora acelerados ao máximo pelas facilidades de comunicação via internet, cuja origem remonta à Primavera dos Povos de 1848 que na França derrubou a monarquia fundando a 2ª. República e logo repercutiu em meia centena de países com as bandeiras do combate aos regimes autocráticos, à falta de representação popular e à crise econômica. Foi o ano da Praieira em Pernambuco onde o Manifesto ao Mundo escrito pelos republicanos liberais Pedro Ivo e Borges da Fonseca pedia direitos para todos, o federalismo e até o fim do poder moderador de dom Pedro II. Modernamente as referências mais fortes começam em 1968 com as lutas libertárias, entre outros, dos jovens franceses, alemães, italianos, poloneses, tcheco eslovacos (cuja revolução terminou esmagada pelos tanques soviéticos em Praga) e brasileiros que sofreram a ocupação militar da UNB, UFMG, Mackenzie, mas fizeram a passeata dos cem mil no Rio de Janeiro. Logo, em 1989 veio o Outono das Nações com o colapso do comunismo e a derrubada do Muro de Berlim. Aos poucos o grande capital tornou-se o principal inimigo. A falência do banco Lehman Brothers em 2008 marcou o final do período de euforia econômica, originando três anos depois o Occupy Wall Street no coração do capitalismo.

Para o universo das comunicações digitais a revolução já está acontecendo. Segundo o Ibope, 91% dos manifestantes brasileiros se engajaram através das redes sociais. Na China são centenas de milhões de pessoas que se comunicam pelo Sina Weibo (o Twitter chinês), acumulando uma energia crítica que logo não poderá mais ser contida. Marchas e bloqueios podem ser decididos com incrível agilidade fazendo com que os jovens cheguem aos locais marcados bem antes da polícia ou dos militantes de sindicatos e partidos políticos que com suas pesadas estruturas não conseguem acompanhar a nova moda e são superados rapidamente. Mas há o outro lado da medalha: os movimentos se tornam mais vulneráveis a serviços de inteligência cada vez mais profissionalizados e protestos de massa podem ser dificultados não pela censura e sim pelo congestionamento das linhas. Sob regimes ditatoriais ou autoritários, como no caso de Rússia, China, Arábia Saudita, Turquia, os protestos estão sendo controlados pelas ameaças e pelas botas dos gendarmes. Por quanto tempo? Uma lição sempre repetida nessas revoltas é de que é mais fácil organizar os movimentos de rua do que mantê-los. Espanha, onde os indignados não impediram a volta do Partido Popular ao poder, Tunísia, Líbia, Egito são exemplos de mudanças de curto prazo para pior no comando central (Napoleão III reconstituiu o império francês e os Cavalcanti e seus aliados gabirus retomaram o poder no Recife dos idos do século XIX).  Não obstante, é indiscutível, por um lado, que o mundo está sendo contagiado por uma nova febre que é mais ou menos revolucionária dependendo do país e, por outro lado, que ainda é cedo para dizer que resultado terá.

No Brasil, os analistas parecem concordar em que há desafios importantes a serem superados pelo movimento das ruas: a) definir uma pauta básica de objetivos factíveis a serem alcançados passo a passo, fugindo de temas muito específicos como as lutas por igualdade de gênero e raça; b) estabelecer alguma forma de representação (hoje cada líder de grupo tem uma pauta particular e outra geral) para que os partidos de sempre não voltem a atuar como os únicos representantes do povo; c) evitar a cooptação por um sistema que está tomado pela dinâmica da autopreservação e pela corrupção; d) controlar seus líderes para que não aprendam a malandragem dos políticos tornando-se iguais a eles; e) superar a clássica divisão que caracteriza a classe média, dando-lhe um motivo para que atue de maneira solidaria já nas eleições de 2014; f) manter vivo o movimento baseado, de ora em diante, em alianças e em ações não necessariamente de grande porte, mas regulares. Resta a constatação de que, como desejou Aldous Huxley, estamos iniciando um mundo novo. O Brasil afinal despertou, superando os efeitos do sonho anestésico no qual sobreviveu nos últimos anos. É verdade que não existe um líder para carregar consigo a população, mas talvez ele nem seja mais necessário caso os anseios das ruas se tornem irresistíveis.

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